Mostrar mensagens com a etiqueta João Gilberto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Gilberto. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de julho de 2018

"Há 60 anos, o samba ganhava uma 'bossa nova'"

Share
Este é o título da crónica do jornalista Gabriel Saboia para assinalar o 60º aniversário do nascimento de um novo estilo musical na música popular brasileira, uma nova bossa. De facto, esta nova abordagem à música não nasceu isolada mas  foi sim uma evolução nos estilos musicais já existente no panorama vasto e risxco da música que se fazia já no Brasil e ainda com influências assumidas e latentes da música americana e do jazz.
Em 1963, o crítico José Ramos Tinhorão dizia, "Filha de aventuras secretas de apartamento com a música norte-americana - que é inegavelmente a sua mãe - a bossa nova vive até hoje o mesmo drama de tantas crianças de Copacabana: não sabe que é o pai", conforme refere uma crónica que também asssinala a data na Folha de São Paulo.
A data que oficialmente assinala o nascimento da bossa nova é o dia de lançamento do disco "Chega de Saudade" de João Gilberto e que posteriormente foi considerado o marco mais representativo para assinalar o nascimento deste movimento cultural que, por ter nascido fruto da colaboração e partilha espontânea e desiteressada de um vasto número de artistas, compositores e poetas, não teve um nascimento oficial mas, em oposição, uma génese natural, orgânica e florescente fruto do ambiente que o boêmio Rio de Janeiro da altura proporcionou.
A música que dá nome ao disco é uma criação de António Carlos Jobim e do poeta Vinícius de Moraes e a interpretação e o acompanhamento ao violão de João Gilberto, condensa em si uma grande parte da essência desta nova música e muito se deve a estes três a consolidação e a internacionalização até deste estilo, sem desprimor para todos os outros que contribuiram e que com legitimidade também deve ser considerados protagonistas da criação. Sem a voz, os acordes e o dedilhar do violão único de João Gilberto, a cultura musical ao mesmo tempo eclética e erudita de Tom Jobim e a boêmia malanda aliada a uma fé inabalável e ingénua no amor do poetinha seria impossível que este estilo músical reunisse tantas músicas tão cheias de ternura e afetos, com uma simplicidade só digna de génios. Uma música tão incrivelmente intemporal e que nos transporta tão rapidamente para o maravilhoso Rio de Janeiro.


Crónica Globo
Crónica Folha de São Paulo

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

"Rio você foi feito pra mim"

Share
"Rio você foi feito pra mim"
trecho da música Samba do avião - Tom Jobim



Uma das principais razões do meu amor pelo Rio de Janeiro é a minha paixão pela música e, consequentemente, pelka música que se faz no Brasil. E o Rio sempre foi um dos núcleos mais importantes de criação de música de qualidade nos mais diversos estilos musicais que caracterizam o Brasil. Foi a origem do samba e do Carnaval das escolas de samba, foi o centro nevrálgico do surgimento da Bossa Nova, foi o berço de muitos dos artistas que revolucionaram a música moderna brasileira a partir dos finais dos anos 70 e, também por isso, foi e ainda é o local onde se realiza um dos festivais de música mais emblemáticos do mundo.
Foi ainda a rampa de lançamento escolhida por muitos artistas doutros pontos do Brasil para o lançamento da sua carreira, tais como os baianos, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia,  a gaúcha Elis Regina ou mesmo o Chico Buarque que, apesar de ter nascido no Rio passou uma parte da sua infância e toda a sua juventude fora do Rio, primeiro na Europa (Itália) e a partir da adolescência até aos seus vinte e poucos anos em São Paulo.
Há tempos voltei a ouvir esta música "Agamamou" de um grupo com mais de 20 anos, originário da região de São Paulo e que descobri na minha primeira visita ao Brasil, numas férias na região de Recife e que fazem um dueto com um dos mitos da música brasileira e do soul brasileiro, carioca da gem do bairro da Tijuca, Jorge Benjor.
A música brasileira é muito isto, uma festa, uma alegria contagiante mas também uma miscigenação de estilos sem qualquer tipo de preconceitos, onde o brega se junta ao soul ou ao samba para criar música de qualidade e momentos únicos de entretenimento. Há coisa melhor?

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Aos anos que não ouvia isto

Share
Ouvi esta manhã quando vinha para o escritório e é uma música que esteve muito presente numa fase da minha vida. Apesar de haver muitas versões de diversos artistas consagrados de quem gsoto muito, a versão descomplicada, natural e depurada do João Gilberto é a líder destacada. Era uma música muito tocada nos vários bares de música ao vivo que existiam em Lisboa e que apostavam na música brasileira, bossa nova e mpb, nas suas noites mais populares.
Com música e letra do grande Ary Barroso, "Isto aqui, o que é?" é um hino de exaltação ao Brasil, esse Brasil que  seduz e que é pleno de encantos.



"Isto aqui, ô ô
É um pouquinho de Brasil iá iá
Deste Brasil que canta e é feliz,
Feliz, feliz,

É também um pouco de uma raça
Que não tem medo de fumaça ai, ai
E não se entrega não

Olha o jeito nas 'cadeira' que ela sabe dar
Olha só o remelexo que ela sabe dar (Repete)

Morena boa, que me faz penar,
Bota a sandália de prata
E vem pro samba sambar"
Isto aqui, o que é? - João Gilberto

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Rio Rio Rio choro e rio rio

Share
Finalmente está disponível para este lado do Atlântico a música principal da trilha sonora do filme "Rio eu te amo". Esta música faz ainda parte do dvd "Gilbertos Sambas" do Gilberto Gil que se baseia no seu último disco onde ele homenageia João Gilberto. O disco foi produzido por Moreno Veloso e conta ainda com a participação de Domenico.
Ficam aqui as duas versões, o maravilhoso clip oficial com imagens deliciosas do nosso Rio e a versão do show ao vivo.





"Basta avistar o Cristo Redentor
E associar a isto a minha dor
De onde quer que eu esteja, qual seja
Longe ou perto o lugar
De pedra sobre a pedra ele luar

Esta paisagem bela toda cor
Da tela que tanto pintor pintou
Basta avistar o Cristo e a isto
Poder associar
Amor e dor e amar e amar

Rio Rio Rio choro e rio rio e choro
Rio Rio Rio rio e choro choro e rio

Acompanhar-te os passos da paixão
Tem sido em parte a arte da nação
Tantos poetas tantos cantores traçando teus perfis
E olhos do mundo inteiro pro teu nariz

Ontem nos deste um jeito de dançar
Hoje eu trago no peito o teu penar
Eta cidade imensa quem pensa poder te entender
Que entenda e venha me dizer

Rio Rio Rio choro e rio rio e choro
Rio Rio Rio rio e choro choro e rio"
Rio eu te amo - Gilberto Gil

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Adoro quando isto acontece

Share

Novembro vai ser o mês das descobertas que tenhop feito ao longo destes últimos tempos e a continuação das novidades que já começaram em Outubro. Só este ano é que descobri mais um talento canadiano que canta jazz e bossa, Emilie-Claire Barlow tem uma voz lindíssima e é uma grande falha no meu trajecto de busca de boa música pis já tem uns 9 álbuns e o primeiro é de 1998. Canta em português com um sotaque bastante charmoso como se pode comprovar nesta sua versão de "Só danço samba" de Tom Jobim e Vinícius de Moraes e popularizada por João Gilberto e está muito bem. Tem ainda, no mesmo álbum chamado "like a lover" de 2005, uma versão incrível de uma das minhas músicas favoritas, "Retrato em branco e preto" de Tom Jobim e Chico Buarque. Não existe no Youtube mas, para quem tiver Spotify, aproveite.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Novidades boas

Share

Disco e dvd da turnée actaul do Caetano Veloso, Abraçaço Multishow ao vivo e novo disco do Gilberto Gil,chamado Samba e que é uma homenagem ao João Gilberto. Quero muito e depressa, por favor, que sou bem educado. Como não podia deixar de ser os bilhetes para o show do Caetano em Lisboa no próximo dia 28 de Abril, já cá cantam, virtualmente mas já cá cantam.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Parabéns Rio

Share
Viva São Sebastião do Rio de Janeiro, padroeiro da beleza e da alegria carioca!
"Deixa que o meu samba
Sabe tudo sem você
Não acredito que o meu samba
Só dependa de você
A dor é minha em mim doeu
A culpa é sua o samba é meu
Então não vamos mais brigar
Saudade fez um samba em seu lugar

Deixa que o meu samba
Sabe tudo sem você
Não acredito que o meu samba
Só dependa de você
A dor é minha em mim doeu
A culpa é sua o samba é meu
Então não vamos mais brigar
Saudade fez um samba em seu lugar

Deixa que o meu samba
Sabe tudo sem você
Não acredito que o meu samba
Só dependa de você
A dor é minha em mim doeu
A culpa é sua o samba é meu
Então não vamos mais brigar
Saudade fez um samba em seu lugar (benzinho)
Saudade fez um samba em seu lugar"
Saudade fez um samba - João Gilberto

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

50 anos

Share

Apenas porque a data é redonda de mais para não se assinalar e porque é uma música ícone que mais representa uma série de coisas que eu valorizo muito na minha vida é que me faz decidir colocar a música aqui no blog. Nunca amei esta música mas amo tudo o que ela me lembra e tudo para ela me transporta e só assim consigo suportar a milhentas vezes que ouvi as suas milhares de versões em modo música de hotel e de elevador. E assim, e como o Vinícius gostava de fazer, Saravá ao Vinícius e ao Tom pela inspiração, saravá à praia, ao mar e ao bairro de Ipanema que ainda hoje é maravilhosamente inspirador, Saravá ao doce balanço de todas as gatas cariocas, às de Ipanema em especial e à minha gata musa linda que se tornou zuga no momento que pisou o Rio pela primeira vez, Saravá à Bossa e a toda a música maravilhosa que nos chega do outro lado do Atlântico, Saravá ao restaurante Garota de Ipanema e a todos os restantes Garotas que existem no Rio e em especial Saravá ao Garota da Urca. Saravá també ao Veloso que era o boteco origianl e que agora é um bar maravilhoso no Leblon. Saravá aos croquetes de picanha irresistíveis do Veloso. Saravá também à musa inspiradora, Helô Pinheiro. Saravá a toda a cidade do Rio que é uma inspiração permanente e quase uma segunda casa para mim. Saravá a todos os músicos que conferiram à música um pouco mais de valor agregando-lhe um pouco de cada um deles, em especial João Gilberto, Astrid Gilberto, Stan Getz e Frank Sinatra. E um último Saravá a todos os meus amigos que partilham mais ou menos esta minha paixão pelas terras e pelas riquezas cariocas e que são um pilar fundamental da minha vida.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Feliz aniversário amigo!!

Share
Esta é totalmente para ti!! Ainda por cima com os dois suspeitos do costume jumtos! Ainda vamos ter muitas descobertas da música que amamos, juntos. Grande abraço!

O Pato - João Gilberto, Caetano Veloso

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Espero que venha desta vez a Lisboa

Share
João Gilberto vai comemorar os 80 anos, que fez este ano, da maneira certa com uma turné chamada simplesmente, 80 anos. Dserá que é desta? Era uma óptima maneira de matar saudades do meu Rio.

"Um cantinho e um violão
Este amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama

Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar

Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor que lindo

Quero a vida sempre assim com você perto de mim
Até o apagar da velha chama

E eu que era triste
Descrente deste mundo
Ao encontrar você eu conheci
O que é felicidade meu amor

O que é felicidade, o que é felicidade"
Corcovado - João Gilberto (tema de Tom Jobim)



quinta-feira, 14 de julho de 2011

Mais duas crónicas magníficas de Arnaldo Jabor no Estadão

Share
''A obra de arte tem de ser imperfeita''
07 de junho de 2011 | 0h 00
Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
Outro dia, o Nelson Rodrigues baixou em mim. De vez em quando, eu o psicografo. É impressionante como escrevo rápido quando o espírito de Nelson me toma. Escrevo com a liberdade de não ser "eu". Talvez seja por isso que F. Pessoa inventou heterônimos para se sentir livre da cangalha do "eu".
Muitos jovens me perguntam: "Afinal, quem foi o Nelson?"
Não sabem direito. Ficou apenas a vaga lenda de "pornográfico" ou até de "fascista" por ter puxado o saco do ditador Médici (lembram?) para tirar seu filho da prisão. Não conseguiu, mas ganhou a pecha "de direita" por ter criticado futuros mensaleiros e pelegos, os "marxistas de galinheiro", como ele os chamava, pois intuiu claramente, na época, que a ideologia que "absolve e justifica os canalhas" era apenas o ópio dos intelectuais.
Eu mesmo sofri por causa dele. Em 1973, ousei filmar Toda Nudez Será Castigada e dei uma entrevista na Veja em que dizia que "fascismo é amplo: existe fascista de direita e de esquerda também". Pra quê? Os patrulheiros ideológicos mandaram um manifesto ao Jornal do Brasil, onde me esculhambavam indiretamente, dizendo que o sucesso imenso que o filme fazia "não era a missão política do cinema novo". Foi das grandes dores que senti, pois até amigos assinaram o maldito texto, que só não foi publicado porque, um dia antes, os generais tiraram o filme de cartaz, com soldados de metralhadora, levando as cópias dos cinemas porque, dizia o chefe da Censura: "Ele faz apologia do homossexualismo..."
Aí, meus "amigos" comunas desistiram do texto "para não dar razão ao inimigo principal", que era a ditadura. Eu e Nelson éramos "inimigos secundários", para usar a língua de Mao Tsé-tung. Isso é verdade e nunca contei aqui. Doeu, mas já passou.
Aí, o filme voltou a cartaz porque ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim; os generais ficaram com medo da repercussão internacional (imensa) e liberaram meu filme, baseado numa peça do "fascista pornô". Mas a importância de Nelson continua subestimada.
Hoje, a "pornopolítica" tomou conta de tudo e Nelson é que tem fama de "pornográfico" - logo quem: um moralista que corava diante de um palavrão. Nelson é muito mais. Filho do jornalismo policial, formado nas delegacias sórdidas, vendo cadáveres de negros plásticos, metido no cotidiano "marrom" do jornal do pai, Nelson flagrou verdades imortais que estavam ali, no meio da rua, na nossa cara, e que ninguém via.
Consideram-no o maior dramaturgo do País, sem dúvida, mas não o colocam no pódio da literatura culta, ao lado de gente como Guimarães Rosa, por exemplo, que o irritava muito: "Jabor, diga-me pelo amor de Deus, qual a profundidade da frase "Viver é muito perigoso"?" Ou: "A gente morre para provar que viveu...?" Nelson implicava com a pose do Rosa.
Uma vez, ele me disse ao telefone que o "problema da literatura nacional é que nenhum escritor sabe bater um escanteio". É luminoso.
Outra vez, ele falou: "Se Deus me perguntar se eu fiz alguma coisa que preste na vida, eu responderei a Deus: "Sim, Senhor, eu inventei o óbvio!""
Sua literatura nos ensina o óbvio e isto é muito profundo numa literatura eivada de engajamentos "corretos" ou de intenções formais rocambolescas. Gilberto Freyre sacou sua "superficialidade profunda", assim como André Maurois entendeu que a genialidade de Proust era justamente "a épica das irrelevâncias..." E isto é muito saudável, num país onde ninguém escreve um bilhete sem buscar a eternidade. Nelson é um escritor contemporâneo.
Até hoje, muita gente não entendeu que sua grandeza está justamente na sincronia com os detritos do cotidiano. A faxina que Nelson fez na prosa é semelhante à que João Cabral fez na poesia.
Nelson baniu as metáforas a pontapés "como ratazanas grávidas" e criou o que podemos chamar de antimetáforas feitas de banalidades condensadas. Suas comparações sempre nos remetem a um "mais concreto". Shakespeare tinha isso, Cervantes, também. E algumas crônicas de Nelson são superiores a muitas peças.
Suas frases famosas jamais aspiravam ao "sublime": "o torcedor rubro-negro sangra como um César apunhalado", "a mulher dava gargalhadas de bruxa de disco infantil", "em seu ódio ele dava arrancos de cachorro atropelado", "seu peito se encheu de heroísmo como anúncio de fortificante", "a bola seguia Didi com a fidelidade de uma cadelinha ao seu dono", "a virtude é bonita, mas exala um tédio homicida; não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera", "o sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura", "somos uns Narcisos às avessas que cuspimos na própria imagem".
Ele me dava lições de arte e literatura: "Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão elitista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões. E aí vem a grande verdade: "A obra-prima no futebol e na arte tem de ser imperfeita". Isso. Contemporâneo e minimalista, via, como Oswald, que a poesia está nos fatos, no vatapá no outro e na dança - "o que estraga a obra de arte é a unidade".
A lição política de Nelson é: o Brasil não se salvará com planos messiânicos ou ideias gerais de "epopeias de Cecil B. de Mille", sejam elas epopeias operárias ou epopeias neoliberais.
Nelson, sem cultura política nenhuma, profetizou que os atos "indutivos", as providências parciais eram muito mais importantes que generalidades utópicas e "dedutivas". O "óbvio ululante" é limpar a casa e cuidar do detalhe, do enxugamento do Estado, "chupando a carótida dos chefes das estatais como tangerinas" quando se mostrarem ladrões ou favorecendo correligionários, como vemos todo dia.
Nossa opinião pública está muito mais informada hoje, mas ainda é precária e desinformada. Como ele dizia: "Consciência social de brasileiro é medo da polícia". Até hoje.

A única vez que vi João Gilberto
14 de junho de 2011 | 0h 00
Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
João Gilberto fez 80 anos na sexta-feira passada, mas eu só o vi pessoalmente uma vez. Foi 17 anos atrás, no ensaio de um show no Ibirapuera (acho que era aniversário de São Paulo). Eu tinha virado jornalista, depois que o Collor acabou com o cinema em 1991, e me mandaram fazer uma reportagem sobre a preparação do show. E lá fui eu, na noite fria do parque, esperar João Gilberto chegar, enquanto o palco era montado. Já contei isso, na época, mas "vale a pena ler de novo".
Vinte e três horas. Começa um boato de que João não virá para o ensaio nesta noite ventosa, angustiando tietes e organizadores que esperam ver/ouvir aquele "homem-suspense", com seu jeito eclesiástico, seu ar de professor de ética, que, aliás, sempre me provocou uma sensação de culpa: "Estarei errado, comparado ao rigor artístico de João?" De certa forma, todos estamos.
Aí, chega a terrível notícia: João não virá! Mas, mesmo assim, ninguém arreda o pé. João provoca uma espécie de fé nas pessoas, que o esperam ali, entre carpinteiros malhando o cenário e uivos das caixas de som. Espera-se esse homem com a fome de alguma revelação.
Eis que, à meia-noite em ponto, faz-se um grande silêncio no parque: João Gilberto materializa-se no palco! Surgiu do nada. Ao seu lado, o irmão Vavá e o amigo do peito Krikor Tcherkessian, armênio delirante que tem arranques de paixão com a música brasileira.
E aí, percebo que o ensaio e o show do dia seguinte são partes de um fio só, não interrompido. Ninguém fala mais; um carpinteiro sussurra ao diretor Fernando Faro: "Posso bater este prego?" "Pode..." As marteladas vêm aveludadas, tímidas, respeitosas e param. João lança a voz pela noite como os primeiros traços de um quadro numa tela negra. Sua música é a pura modulação do silêncio que se instalou. Ele começa Canta Brasil. Todos se imobilizam - Daniela Thomas, emocionada, pinta cores de Matisse no cenário; a equipe de Walter Salles Jr., que filma o evento, comunica-se por telepatia e as câmeras flutuam como "ETs" mudos. Eu olho João mais de perto e vejo que ele veste calças jeans, paletó marrom e tênis branco marca Pé de Atleta e vejo intrigado que seu irmão Vavá, calvo e ungido como um frade, também usa tênis Pé de Atleta. Sinto que ali estava um indício precioso para desvelar um pouco do seu cotidiano tão misterioso. Por que Pé de Atleta? Terão os irmãos comprado tênis brancos, em doce fraternidade do dia a dia? O tênis branco fazia João mais real.
Subitamente, ele se levanta e, pisando macio no tênis, mergulha na escuridão do parque, para ouvir o teste de som, do outro lado da praça, a mais de cem metros. Corro atrás, como bom repórter principiante.
E aí, começa o mágico momento do encontro: eu, trêmulo, no meio das folhagens do parque, descubro deslumbrado que ele me conhece: "Oh... Arnaldo... Arnaldo... vejo você na televisão..." Só minha mãe me chamava de Arnaldo e, agora, seu filho, mamãe, estava ao lado do mito. Os testes do som vinham do palco e João me pergunta: "Arnaldo... (ele parecia ter prazer em escandir as sílabas meio humorísticas de meu nome), Arnaldo, que você está achando do som?"
Eu arrisco: "Os graves estão reverberando e há um vazio..." João concorda, de estalo: "É isso! Tem um vazio... Falta qualquer coisa! Tens razão, Arnaldo; a frase tem início e fim, mas não tem meio! O som não tem meio. Ouve: "Essa mulata quando dança é luxo só" - a gente ouve "mulata e só"..."
João se vira para os técnicos: "Falta o meio do som..." O chefe arrisca uma explicação tecnopoética de que o vento esgarça o som e que, no dia seguinte, no calor dos corpos da praça cheia, o som ficará denso.
Súbito, João já está no microfone (a memória me vem por cortes bruscos) e começa a cantar Ronda, de Paulo Vanzolini, que vira um gemido clássico sobre a solidão absoluta e eis que surge Rita Lee no escuro da noite ("O que vou cantar não sei... quebrei o braço; foi o tombamento do Ibirapuera... ah ah...") e senta num canto do palco enquanto Krikor soluça em meu ouvido: "Ele é o Pelé da música... o mundo o ouve de joelhos!" Aí, chega o Caetano de um show no Anhangabaú e se junta discretamente a todos que ali se movem, ciciando, com passos camuflados. Tenho vontade de perguntar: "Há perigo?.." Há, sim, há o perigo de se quebrar a fina lâmina do silêncio, de desagradar a João.
Mas, ele está agora eufórico, cantando em falsete caricato o Dobrado de Amor a São Paulo, de Vinicius e Haroldo Tapajós, com o conjunto Quatro por Quatro. Depois, quando João canta Lua Cheia, todos já estão imóveis, como se o João fosse um passarinho que pudesse voar. Alguém me segreda: "Acho que o show já é só isso; amanhã ele nem vem..."
Mas, logo depois Caetano, meio tímido, passa Coração Vagabundo, que João repassa mais lento e mais baixo e Coração Vagabundo vira um réquiem e Rita Lee canta "cola teu rosto no meu rosto" e João emenda com Nada Além e o "além" soa como se João conhecesse o "país não descoberto" que vem depois da morte.
Enquanto isso, eu penso, aflito: "Perguntar o que, ao João?" Mas, só me ocorrem banalidades, toda ideia me parece rasteira, vulgar. Nervoso, decido perguntar algo que me revele mais segredos do cantor misterioso, algo "essencial", de que os tênis brancos Pé de Atleta talvez já fossem uma pista.
De repente, vejo que João está indo embora. Apavorado, corro atrás dele, sem saber o que lhe perguntar: música, vida pessoal, política? Paro ao seu lado: "E aí, João?" Ele sorri, esperando. Atrapalhado, me sai pela boca a tal "pergunta essencial": "E aí, João... ah... ah... para onde vai o Brasil?" Ele faz uma pausa, me olha fundo e diz: "Você sabe, Arnaaaaldo...." e some na noite.
João sabia o rumo do País e, bom sinal, não parecia preocupado.
Quando ele se foi, rompeu-se o silêncio, restaurou-se a realidade e alguém berrou aliviado: "Vamos comer num japonês!?"
Foi a única vez que estive com João Gilberto, em 80 anos.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Você me perdoa, mestre João?

Share
O passado dia 10 de Junho celebrou mais um aniversário de uma das grands personalidades da música e um dos principais culpados, se não o principal, pela minha paixão ardente pela música brasileira e pelo Rio de Janeiro. Infelizmente nunca tive a oportunidade de o ver ao vivo mas sinto um enorme gosto em saber que, apesar dos seus 80 anos, continua ser possível que esse dia se concretize. Parabéns mestre João Gilberto, mesmo atrasados.

Esta é uma das minhas favoritas e umas das primeiras músicas que me lembro de ouvir o João Gilberto cantar. Grande Ary Barroso, também eu já me sinto com legitimidade para dizer, "Meu Brasil brasileiro!"

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Intemporal

Share
Voltei a ouvi-lo completo e não consigo parar. Se voltassem a construir uma cápsula espacial para enviar para eventuais encontros com seres de outros planetas, este disco, definitivamente, tinha que ir. Representa o melhor que a humanidade tem, acentuado pela voz inigualável de João Gilberto, os poemas simples mas profundos, intimistas e emocionantes dos melhores poetas, Carlos Lyra, Vinícius, Ary Barroso, Newton Mendonça, Dorival Caymmi e o ritmo e a melodia contagiante da Bossa, chancelada pelos seus mais distintos representantes, onde se destaca, o maestro Tom Jobim (não esquecer Ronaldo Bôscoli, namorado de Nara Leão e futuro marido de Elis Regina).
Há poucas coisas no mundo que juntem tantos génios e que carregue consigo tanta história, tantos acontecimentos e tantas influências em mais de 50 anos (o disco é de 58!) que continuam a acontecer nos nossos dias. Nada é por acaso.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Coração Vagabundo

Share
Estreou no Brasil um filme documentário sobre Caetano Veloso e eu, evidentemente estou em pulgas e vous estar nervoso e em stress até ao dia que poder ter esse dvd na minha mão para desfrutar de mais uma noite dedicada à mpb na minha humilde casa. Segundo percebi, é um documentário que acompanha uma tourné do Caetano ao Japão e aos Estados Unidos e, de certeza, que estará repleto de momentos marcantes, pelo menos para mim. Caetano é para mim um Deus a quem quase tudo é permitido, mesmo alguns trabalhos menos conseguidos, pois a grandeza do seu contributo para momentos felizes na minha vida, perdoa tudo. São inúmeras as músicas e os poemas que estão cravados nas minhas memórias e, consequentemente, na minha vida. E, também por isso, está continuamente vivo no meu presente. É raro o dia que não ouço ou, pelo menos, que não me vem à memória uma música dele e não há expressão mais certa para me identificar que que o título e a música, Coração Vagabundo. fica aqui o trailer oficial do filme e uma apresentação merecida do grande Nelson Motta.



Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer
Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher...

Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim!
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim!

terça-feira, 30 de junho de 2009

E por falar em saudade

Share
Faltava aqui a musica que inspirou esta vida, ainda por cima num momento único, um encontro de génios que me têm acompanhado a vida inteira. A realidade é mesmo que sem a saudade não há beleza.
João Gilberto e Caetano Veloso - Chega de Saudade