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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Deliciosa

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Volto a falar de Rubem Graga com todo o gosto. Mais uma crónica magnífica do Arnaldo Jabor:
"Caro Rubem Braga,

Escrevo-lhe estas mal traçadas linhas para comemorar seu aniversário de 100 anos. Sei que me condenaria por este começo de artigo, pois você lutava contra os lugares-comuns da imprensa. Uma vez me disse que demitiria qualquer redator que começasse um texto com "Natal, Natal, bimbalham os sinos" ou então "Tirante, é obvio..." ou ainda "O comboio ficou reduzido a um montão de ferros retorcidos". Sei que, odiando lugares-comuns, você estaria rindo das homenagens que lhe prestam - velhinho com 100 anos sendo tratado como um ser especial, logo você que sempre quis ser um homem comum, sem lugar claro na vida. Você não tinha nada de 'especial', nenhum brilho ostensivo; você não falava muito e tinha a melancolia que lhe dava o posto de observação privilegiado para ver a vida correndo à sua volta 'aos borbotões, a vida ávida e passageira' (perdoe-me de novo...)

A primeira vez que nos vimos foi por volta de 1975, quando lhe pedi autorização para usar Ai de ti, Copacabana como título de meu filme Tudo Bem, que acabei não usando; mas, bem antes disso, eu tinha visto você de longe no Antonio's, nosso bar mitológico, brigando com o Di Cavalcanti ("para de pintar mulatas que você não come!", e tinha lido crônicas geniais como Um Pé de Milho - você observando um grão virar pendão em seu jardim, você, um feliz fazendeiro da Rua Júlio de Castilhos.

Vi você vendo o outono chegar a Botafogo dentro de um bonde, vi você vendo as estações do ano voando sobre Ipanema (desculpe as aliterações...), vi que você via a cidade por baixo das casas e edifícios, a praia dos tatuís hoje sumidos, o vento terral soprando nas praças, senti que você tinha uma saudade não sei de que, uma nostalgia repassava suas crônicas, como em Tom Jobim, em Vinicius, numa época em que a literatura era importante, em que o Rio tinha a placidez baldia de uma paisagem vista de dentro; lembro-me de você espinafrando a destruição de Ipanema pelos bombardeios criminosos de Sergio Dourado e Gomes de Almeida Fernandes, os dois malfeitores que exterminaram a zona sul em poucos anos. "Eu sou do tempo em que as geladeiras eram brancas e os telefones pretos" - você batia na mesa - "e eles destruíram tudo!"

Suas frases ecoam na minha cabeça, não por alguma profundidade ambiciosa, mas justamente por uma 'superficialidade' buscada, como uma conversa de amigos íntimos. Não vou citar nada, mas estou no Rio, em frente do 'velho oceano' (ah! Cuidado com o 'rocambole'!...), são 6 da tarde e vejo ao longe as ilhas Cagarras envolvidas numa névoa roxa, naquela hora em que a linha do horizonte se une ao céu, com o mar imóvel, sólido e cinzento.

A segunda vez que lhe vi foi em sua casa, numa festa pequena para amigos onde eu entrei sem ar (quem me levou?). Ali na varanda em frente de Ipanema estavam homens que eu temia - ídolos de minha juventude angustiada. Ali estavam tomando uísque o Vinicius de Moraes, você, Fernando Sabino e minha paixão literária máxima: João Cabral de Mello Neto, o gênio da poesia. Danuza Leão também estava. Todo mundo meio de porre, principalmente o João Cabral, que bebia mal e implicava com o Vinicius numa agridoce provocação, criticando-o por ter abandonado a poesia pela música popular. João Cabral odiava música, que lhe doía na cabeça como um barulho, estragando seu pensamento obsessivo, piorando suas horrendas dores de cabeça. João Cabral sacaneava: "Que negócio de 'garota de Ipanema', Vina, você é poeta!". O Vinicius ficava puto, mas respondia conciliatório: "Para com isso, Joãozinho; deixa isso pra lá!". O Cabral insistia: "Que tonga da milonga do caburetê que nada...", a ponto de Danuza ralhar com ele: "Deixa de ser chato, João Cabral!". Lembra disso, Rubem? Imagine minha emoção de jovem tiete ao assistir àquela briguinha íntima e mixa entre minhas estrelas. A honraria me sufocava. Você ria dos dois ali no seu jardim suspenso, como um operário de outra construção - crônicas sem ambição e por isso mesmo muito além de teorias.

Lembro que, em dada hora, o João Cabral me segredou (Oh, suprema alegria!...): "O mal que Fernando Pessoa fez à poesia foi imenso." Tremi aliviado, pois secretamente sempre achei a mesma coisa - aqueles delírios portugueses lamentosos e subfilosóficos sempre me encheram. (Por favor: cartas me esculachando para a redação).

Que pena que não lhes conheci mais intimamente, pois tinha medo de vocês - não me achava digno. Naquela época (início dos 70) havia tempo e energia para se discutir literatura. Hoje, neste tempo digital e veloz, ou temos o derrame de besteiras nas redes sociais ou porcarias de autoajuda nas listas de best-sellers.

Só. Naquela época havia o consolo de um sentido, mesmo sob a ditadura, que até enfurecia nossa fome de verdade.

Tenho saudades das polêmicas sobre 'forma', sobre 'mensagens' até caretas, tenho saudades 'das velhas perguntas e das velhas respostas' - como escreveu Beckett.

A última vez que nos vimos, Rubem, foi numa noite chuvosa em que saímos do Antonio's meio de porre e eu lhe dei uma carona até a Rua Barão da Torre. No carro, você me contou, rindo com a voz pastosa, que aparecera uma garota de uns 18 anos em sua casa que resolveu se apaixonar por você e que ia ao seu jardim para 'dar ao mestre'. "Não sei o que ela vê em mim, mas vou comendo..." Adorei a confidência, mas vi que você estava mais velho e cansado, mais bêbado do que eu. Ajudei você a sair do carro até a portaria de sua pirâmide, onde deixei você, meio grato e meio irritado pela ajuda.

Depois, você morreu. Soube emocionado que você contratou a própria cremação - foi a São Paulo e o funcionário perguntou: "Pra quem é?" "Para mim mesmo", respondeu você, poeta macho. Por isso, quando vejo esse papo todo de 'fazendeiro do ar', de 'poeta do cotidiano', imagino que você diria: "Não me encham o saco. Sou apenas um pobre homem de Cachoeiro de Itapemirim..."

Grande abraço e parabéns pelos 100 anos. "
Arnaldo Jabor, Estadão, !5 de Janeiro de 2013

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Estas coisas não podem acontecer por acaso

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Apesar de gostar da maioria das crónicas, não é assim tão frequente ouvir a crónica "sinais" do Fernando Alves na TSF simplesmente por geralmente não calha com o momento em que estou no carro a ir para o trabalho. Mas hoje ouvi e percebi que tinha de ouvir pois foi dedicado ao escritor Rubem Braga já que amanhã se comemora o centenário do seu nascimento. Este maravilhoso poeta brasileiro foi um grande amigo e parceiro do saudoso Vinícius de Moraes que, curiosamente, nasceu no mesmo 1913 e, portanto, também este ano se comemorará o seu centenário, mais propriamente a 19 de Outubro. A crónica fala, entre outras coisas, do gentil e sentido 'recado' que o Rubem Braga lhe escreveu, na primavera de 1980 (o Vinícius morreu a 9 de Julho desse ano, em pleno inverno do hemisfério sul) dando-lhe a triste notícia que a primavera tinha chegado sem Vinícius pela primeira vez desde 1913. É dos exemplos mais marcantes daquilo que deve ser a amizade. Lembra-me uma frase curta, sensata e eloquente o do Vinícius, "A gente não faz amigos, reconhece-os".

 "No Centenário de Rubem Braga
 Passa amanhã o centenário do nascimento de Rubem Braga, "o bravo Capitão Braga", como lhe chamou o grande amigo Vinicius de Moraes, cujo centenário se assinala também neste 2013. Vinicius morreu dez anos antes de Braga. E o grande cronista enviou-lhe, uns dias adiante, um "recado de primavera". Rubem Braga, que tinha feito de tudo nos jornais, reportagem de guerra, crónica, anotações intensas sobre a vida (que, ele o dizia, tanto escapava aos jornais), dava ao amigo Vinicius uma "notícia grave": a primavera chegara. Era a primeira primavera sem Vinicius, desde 1913, sublinhava o autor de "As coisas boas da vida": "Seu nome virou placa de rua e nessa rua que tem seu nome na placa vi ontem 3 garotas de Ipanema que usavam mini-saias. Parece que a moda voltou, nessa primavera. Acho que você aprovaria.(...)O tempo vai passando, poeta, chega a primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui - a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor." É um exercício demorado e surpreendente o de reunir o tanto que eles se escreveram, em ternura cúmplice. Mesmo quando Braga fez um arremedo irónico da Garota de Ipanema -ele que não olhou com bons olhos para a aventura musical de Vinicius,talvez porque esta o afastasse da oficina mais rigorosa do trabalho poético.. Rubem Braga e Vinicius foram ambos diplomatas. O mundo de ambos era vasto e há, no que se escreveram, algumas vezes, abraços de longe. Vinicius, na longa e tocante "Mensagem a Rubem Braga": "A meu amigo Rubem Braga digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever, mas digam-lhe: Digam-lhe que é Natal, que os sinos estão estão batendo e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros, falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia. Mas fora isso, vai-se vivendo". Procura a "Mensagem a Rubem Braga", a longa e comovente mensagem ao "bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil". E, neste fim de semana, procura um dos tantos livros de crónicas de Rubem Braga, jornalista multidisciplinar que ganhou prestígio na arte da crónica. Como ele dizia, escreveu sempre "para ser publicado no dia seguinte". Chamo, assim, para ele, na véspera do dia. Uma vez pediram-lhe que enumerasse dez coisas boas da vida. Dez coisas "que fazem a vida valer a pena". Entre essas dez coisas (coisas como reencontrar um sabor de comida da infância, "de tarde, na fazenda"), ele apontou: "Ler pela primeira vez um poema realmente bom, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler". Para amanhã: ler, ou reler, uma crónica de Rubem Braga. Se não tiveres à mão um dos seus livros, a Internet está cheia de crónicas dele. Em fundo, um samba de Vinicius."
Sinais de 11/01/2013 - Fernando Alves