Duas crónicas do Jornal i da Mónica Marques e do Hugo Gonçalves. Quem me conhece sabe que eu não poderia concordar mais com os dois e que, apesar da inquietante inveja, dá prazer sentir este prazer.
Não há pecado abaixo do equador por Mónica Marques, Publicado em 13 de Dezembro de 2010, jornal i
Há um ano ou dois resolvi chatear-me com o Velho Mundo: Com os museus, as bibliotecas, as universidades e as discotecas cheias de jovens chatos e vegetarianos, nada diletantes. E manicures suburbanas, e universitárias iletradas e confusas por não serem meninas bem de dicção afectada, maravilhosa e irritante ao mesmo tempo. E de sindicalistas de meia-tigela e filósofos barbudos de 35 anos, que frequentam jardins gelados para se porem a pensar, a pensar.
Há um ano ou dois que sou feliz longe disso. Só com o pãozinho francês do Talho Capixaba, o sol escaldante dos dias quentes do Rio de Janeiro, onde os políticos são ladrões, mas não de meia-tigela, os facínoras são facínoras, o feijão é preto, a maconha dá tesão, a chuva cai direita, o Fluminense é campeão para regozijo meu e do Nelson Rodrigues e o Ferreira Gullar diz, naquele seu riso tão característico e nas tintas para o tempo, que não quer ter razão, só quer é ser feliz.
Final de semana carioca por Hugo Gonçalves, Publicado em 14 de Dezembro de 2010, jornal i
É tudo muito rápido e assim que chegas já estás utilizando o gerúndio sem te dares conta e entre a casa e a praia já bebeste um chopp e há uma agitação de vendedores ambulantes, vapores de gasolina, um machete decapitando um coco com água de gelar o céu-da- -boca. Depois há cervejas na praia, o cheiro da maconha fumada por rapazes que não usam sunga e que talvez tenham profissões artísticas e se desloquem em bicicletas. Em seguida estás num lugar com mais gente e é de noite e os morros iluminados ficam mais bonitos por causa das lentes da cachaça e o teu amigo diz-te, numa festa no Centro, que nunca pensou que as brasileiras fossem tão altas. Dormes pouco e acordas cedo porque a ventoinha no tecto produz um barulhinho bom, mas não refresca. Sais para a praia e no final do dia, num terraço onde se viam urubus planando sobre os prédios, tiveste a certeza que a combinação cachaça & chopp é remédio para a felicidade. No dia seguinte: praia, feijoada, cerveja e cachaça até que a noite apareceu e no Rio podes entrar no mar sem a histeria de um sequestro. É tudo muito rápido, os dias têm a mesma intensidade das semanas em que foste feliz e a presença constante de uma suspeita: mudar de vida é mais fácil do que parece. Porque estás num lugar tão esplendorosamente novo percebes que aqui só um masoquista ficaria deprimido. Talvez não haja nenhuma lição a tirar destes dias que parecem música. Mas quando caminhas para a praia e um dos quiosques passa "Beija eu", de Marisa Monte, sabes que viver com música também é remédio gostoso para a felicidade.
"Seja eu,
Seja eu,
Deixa que eu seja eu.
E aceita
O que seja seu.
Então deita e aceita eu.
Molha eu,
Seca eu,
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu.
Anoiteça e amanheça eu.
Beija eu,
Beija eu,
Beija eu, me beija.
Deixa
O que seja ser
Então beba e receba
Meu corpo no seu corpo,
Eu no meu corpo,
Deixa,
Eu me deixo
Anoiteça e amanheça"
Beija Eu - Marisa Monte
...deixa que eu seja o céu e receba, o que seja seu...
Mostrar mensagens com a etiqueta Mónica Marques. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mónica Marques. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Sina
Uma das minhas sinas é emocionar-me sempre com as várias vozes do Caetano Veloso. A nossa sina é fazermos tudo para sermos felizes e fazermos felizes os que nos fazem bem evocando cada momento especial da nossa vida, tornando-os inesquecíveis.
Excelentes exemplos são os posts da Mónica Marques no Sushi Leblon e do Pedro Ribeiro no Dias Úteis.
"(...)A luz de um grande prazer
É irremediável néon
Quando o grito do prazer
Açoitar o ar
Reveillon...
O luar
Estrela do mar
O sol e o dom
Quiçá um dia
A fúria, desse dom
Virá
Lapidar o sonho
Até gerar o som
Como querer
Caetanear
O que há de bom.(...)"
Djavan - Sina
Excelentes exemplos são os posts da Mónica Marques no Sushi Leblon e do Pedro Ribeiro no Dias Úteis.
"(...)A luz de um grande prazer
É irremediável néon
Quando o grito do prazer
Açoitar o ar
Reveillon...
O luar
Estrela do mar
O sol e o dom
Quiçá um dia
A fúria, desse dom
Virá
Lapidar o sonho
Até gerar o som
Como querer
Caetanear
O que há de bom.(...)"
Djavan - Sina
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O pecado mora ao lado...
Crónica maravilhosa da Mónica Marques que pode ser lida aqui.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Livros da nossa vida
Este ano tem sido pródigo, felizmente, em livros que me vão marcar para sempre. E numa semana, além das maravilhosas férias, ganhei mais um, "A grande Arte" do Rubem Fonseca que é um livro incrível. Vim ainda a comprovar que tenho amigos, grandes amigos, onde é impressionante a quantidade de gostos em comum que possuímos e isso é extremamente saboroso.
Ontem nas arrumações dos livros lidos reparei que tinha arrumado, completamente por acaso, este livro junto ao livro "Transa Atlântica" da Mónica Marques e, de acordo com o que eu já li dela, eu acho que ela vai gostar deste acaso pois nunca conheci ninguém que demonstre tanta admiração por este autor e já estou a incluir alguns amigos fanzaços!
"Ele vai mudar de vida. Vai ficar bom. É por causa daquilo que aconteceu. O casamento vai fazer ele ficar bom. Ela também só pensava naquilo que havia acontecido, mas um dia, lá em Pouso Alto, estava vendo uma vaca pastar e disse para si mesma: cada obstáculo que a gente supera em nossa existência, principalmente os piores e mais horríveis, devem apenas nos fazer sentir mais ainda o prazer de viver. Percebi, olhando aquela vaca, como é bom estar viva! O resto, todo o resto não tem a menor importância se você sabe que está vivo, se você sabe o que é estar vivo. Naquele instante deixei de me lamuriar, deixei de sofrer por medo, paixão, anseios. Isso tudo faz parte de estar vivo. Não adianta me dizer que pensar assim é imoral, um individualismo imprudente ou lá o que for, porque não é nada disso, é apenas amor pela vida.
Penso na vaca, logo, existo feliz."
A Grande Arte - Rubem Fonseca
Ontem nas arrumações dos livros lidos reparei que tinha arrumado, completamente por acaso, este livro junto ao livro "Transa Atlântica" da Mónica Marques e, de acordo com o que eu já li dela, eu acho que ela vai gostar deste acaso pois nunca conheci ninguém que demonstre tanta admiração por este autor e já estou a incluir alguns amigos fanzaços!
"Ele vai mudar de vida. Vai ficar bom. É por causa daquilo que aconteceu. O casamento vai fazer ele ficar bom. Ela também só pensava naquilo que havia acontecido, mas um dia, lá em Pouso Alto, estava vendo uma vaca pastar e disse para si mesma: cada obstáculo que a gente supera em nossa existência, principalmente os piores e mais horríveis, devem apenas nos fazer sentir mais ainda o prazer de viver. Percebi, olhando aquela vaca, como é bom estar viva! O resto, todo o resto não tem a menor importância se você sabe que está vivo, se você sabe o que é estar vivo. Naquele instante deixei de me lamuriar, deixei de sofrer por medo, paixão, anseios. Isso tudo faz parte de estar vivo. Não adianta me dizer que pensar assim é imoral, um individualismo imprudente ou lá o que for, porque não é nada disso, é apenas amor pela vida.
Penso na vaca, logo, existo feliz."
A Grande Arte - Rubem Fonseca
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Transa Atlântica

"Paraísos artificiais. Cheguei à praia. Fiquei a olhar cá de cima, do calçadão, antes de descer os degraus frente à bandeira verde-rosa. Veio o Panela.
"Oi gata." "Oi Panela." "Cadeirinha, gata?" "Cadeirinha, Panela." As pessoas falam assim na vida real.
Despi o vestido, que dobrei e deixei em cima das havainas, ao lado da cadeira. Tirei a canga da sacola, arrumei os fios do biquíni, prendi os cabelos e finalmente sentei-me a beber um mate e a ler a biografia de Leonard Cohen. É que nunca se sabe quando um intelectual pode aparecer. Ali fiquei incapaz de me concentrar. Duas sapatonas chegaram logo depois. Fazendo com que tivesse de ler quarenta vezes uma definição qualquer de tesão, muito mais esotérica do que a anterior de Antônio Houaiss, totalmente concentrada na barriga da que estava deitada ao meu lado e que eu espiava por trás dos meus óculos Ray Ban.
Desconfiadas - não é normal para mulheres do Leblon ler livros destes, na praia, nem em lado nenhum -, levantaram-se e foram ao mar. Fiquei a olhar para a bunda da bonitérrima. Fechei o livro e pensei: Meu Deus, como eu odeioarte contemporânea, ainda está para chegar o homem capaz de me convencer de que três cocos metidos dentro de uma lata é arte. Salvé, Grande Gullar. Fui atrás delas e mergulhei. Mas não sem antes me benzer. Era assim que eu era. E debaixo de água não se pensa em nada."
(...)
"Sair de um amor é triste e aborrecido e cafona. Dói em todo o lugar, até naqueles onde nunca imaginamos ter nervos disponíveis, por exemplo, a mim doeu-me nos dedos dos pés, naqueles meses de Verão, em que chegar à praia ao meio-dia é coisa de gringo. Também me doíam os glúteos quando bicicletava até ao Arpoador. Deixei de olhar os gatos e as gatas malhados e dourados enquanto corria de manhã, o que com certeza me fazia cerrar os olhos diante daquela luz branca e azul, nem ligava. E não tinha a menor vontade de comer. Nesse estado, isso é uma das inúmeras coisas que não se consegue entender e também não importa. Só não sabia onde o erro tinha acontecido, o que me fazia doer a cabeça e provocava noites insones que de tão explicáveis não merecem mais linhas do que as do princípio do livro.
Bem, mas havia também as flores. As flores que deixam de cheirar a prados e passam a lembrar-nos os nossos mortos e, outra vez, o mofo que se acumula nos armários. E os dias que parecem excessivos.
Há músicas que falam disso e que quando tudo passa - porque passa - se tornam muito engraçadas, como quando olhamos uma fotografia dos nossos pais em pleno PREC. Faz parte, estrebuchar, vomitar, viajar até ao deserto. Achar a noite no deserto linda. Derrapar, beber, Porque el alma prende fuego cuando deja de amar, ver filmes quase tão doentios como a realidade. Ou ficar na praia olhando o rasto branco dos aviões da ponte aérea Rio-São Paulo e vir a correr até casa só para poder escrever poesia sobre a beleza das balas que atravessam o Vidigal e chegam à Praça Floriano Peixoto."
Mónica Marques - Transa Atlântica
Subscrever:
Mensagens (Atom)
