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quarta-feira, 11 de julho de 2018

"Há 60 anos, o samba ganhava uma 'bossa nova'"

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Este é o título da crónica do jornalista Gabriel Saboia para assinalar o 60º aniversário do nascimento de um novo estilo musical na música popular brasileira, uma nova bossa. De facto, esta nova abordagem à música não nasceu isolada mas  foi sim uma evolução nos estilos musicais já existente no panorama vasto e risxco da música que se fazia já no Brasil e ainda com influências assumidas e latentes da música americana e do jazz.
Em 1963, o crítico José Ramos Tinhorão dizia, "Filha de aventuras secretas de apartamento com a música norte-americana - que é inegavelmente a sua mãe - a bossa nova vive até hoje o mesmo drama de tantas crianças de Copacabana: não sabe que é o pai", conforme refere uma crónica que também asssinala a data na Folha de São Paulo.
A data que oficialmente assinala o nascimento da bossa nova é o dia de lançamento do disco "Chega de Saudade" de João Gilberto e que posteriormente foi considerado o marco mais representativo para assinalar o nascimento deste movimento cultural que, por ter nascido fruto da colaboração e partilha espontânea e desiteressada de um vasto número de artistas, compositores e poetas, não teve um nascimento oficial mas, em oposição, uma génese natural, orgânica e florescente fruto do ambiente que o boêmio Rio de Janeiro da altura proporcionou.
A música que dá nome ao disco é uma criação de António Carlos Jobim e do poeta Vinícius de Moraes e a interpretação e o acompanhamento ao violão de João Gilberto, condensa em si uma grande parte da essência desta nova música e muito se deve a estes três a consolidação e a internacionalização até deste estilo, sem desprimor para todos os outros que contribuiram e que com legitimidade também deve ser considerados protagonistas da criação. Sem a voz, os acordes e o dedilhar do violão único de João Gilberto, a cultura musical ao mesmo tempo eclética e erudita de Tom Jobim e a boêmia malanda aliada a uma fé inabalável e ingénua no amor do poetinha seria impossível que este estilo músical reunisse tantas músicas tão cheias de ternura e afetos, com uma simplicidade só digna de génios. Uma música tão incrivelmente intemporal e que nos transporta tão rapidamente para o maravilhoso Rio de Janeiro.


Crónica Globo
Crónica Folha de São Paulo

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lamento do Vinícius

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Vinicius tinha uma profunda admiração pelo amigo Pixinguinha. Dizia sempre que, se um dia reencarnasse, gostaria de voltar como o músico. O poeta colocou letra no famoso choro "Lamento", mais de trinta anos depois de sua gravação.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

O Orfeu da Transformação

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Está a assinalar-se no Brasil o sexagésimo aniversário da estreia da peça "Orfeu da Conceição" escrita por Vinícius de Moraes e com música do, então, pianista António Carlos Jobim que, à data, era um jovem com uns imberbes 29 anos.
A peça estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e é uma adaptação em forma de peça musical do mito grego de Orfeu transposto à realidade das favelas cariocas e ao ambiente do carnaval carioca. Além desta dupla virtuosa há ainda a juntar a todo este talento o arquiteto Oscar Niemeyer que foi o responsável pela cenografia da peça. A peça apresentou também um facto bastante arrojado e talvez até controverso para a época, o elenco era inteiramente composto por atores e atrizes de raça negra.
O musical esteve longe de ser um sucesso e teve uma vida muito curta mas o mais importante foi ter sido o motivo e, talvez, a inspiração para uma parceria brilhante e duradoura que gerou dezenas de obras primas dsa música popular brasileira e da bossa nova e que foi um eixo nevrálgico de transformação da música e da cultura popular do Brasil.
O Vinícius não conhecia o jovem Tom que lhe foi aconselhado por um amigo em comum, Lucio Rangel e o encontro aconteceu no ainda existente Bar Villarino no centro do Rio onde Vinícius era visita regular. Conta-se que o jovem Tom Jobim que, na altura vivia da venda de músicas e arranjos para os bares de Copacabana e que "andava sempre atrás do aluguel", perguntou ao já famoso e reconhecido Vinícius quando recebeu o convite, "Tem algum dinheirinho nisso?".
Entre as músicas escritas especialmente para o musical estão os sucessos, "Lamento no morro" e a maravilhosa "Se todos fossem iguais a você" aqui interpretada maravilhosamente pelos mestres.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Infinita ilusão

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Foi ontem o concerto tão esperado em que a Marisa Monte, de volta a Portugal, convidava a fadista Carminho para o seu concerto no idílico palco dos Jardins do Marquês de Pombal em Oeiras. Já perdi a conta às vezes que vi Marisa Monte, acho que só falhei um concerto desde que ela começou a vir a Portugal mas não me farto nem nunca me vou fartar de a ver e ouvir. Lembro-me de todos mas lembro-me especialmente de dois, o da tournée "Barulhinho Bom" com o Coliseu dos Recreios à pinha, muito além da lotação, como era habitual antes das cadeiras da geral, onde ela caiu do palco a dançar, subiu rapidamente, contionuou a música até ao fim e no final pediu desculpa e disse, "acontece".
O outro foi o magnífico show da tournée, "Memórias, crónicas e declarações de amor", vi duas vezes esse concerto. Concerto irrepreensível! Banda incrível, os arranjos das canções primorosos, uma energia extraordinária comungada por todos os músicos e que passou, espontânea e organicamente, para todo público na plateia.
Este foi especial por promover esta comunhão cultural de dois países que falam a mesma língua e partilham muitos aspetos sociais e culturais e que, por isso, deveria ser algo muito nartural mas que, infelizmente, continua a ser tão raro. Mesmo assim, este novo fôlego do fado levou a cultura portuguesa ao Brasil e encantou novamente uma elite cultural que tem, altruística e até carinhosamente, divulgado, promovido e popularizado esta nova geração de artistas lusos.
Foi bonito, muito bonito mesmo, apesar do frio de uma noite de Verão, do vento que prejudicava o som, da voz da Marisa não estar nos melhores dias e até do pouco à vontade da Carminho que, há poucos anos atrás, nem sequer sonhava algum dia poder cantar com álguém que deve ter começado a admirar muito cedo.
Mesmo assim foi lindo e um dos momentos altos foi quando partilharam o fado, "Saudades do Brasil em Portugal", poema que foi escrito pelo Vinícius de Moraes numa das suas passagens por Lisboa a caminho de Roma e que o ofereceu à Amália Rodrigues. Eu juro que, nesse momento, eu ouvi e senti a cuíca e a guitarra a chorarem de emoção numa harmonia notável e comovente. Bastava isso para valer a pena mas houve muito mais coisas que vão ficar na memória e nas emoções de quem lá esteve. Muito provavelmente não se editará nenhum registo deste momento, o que é pena mas, para quem lá esteve e que fez questão de não arredar pé enquanto se percebesse que elas ainda poderiam voltar ao palco, com certeza quer não irão esquecer esta noite. Saudades, desde já.





quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mineira acariocada ou mineiroca

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Descoberta muito recente e muito inesperada até pois, aparentemente, tem estado em destaque lá pelos lados da cidade maravilhosa e já tem trabalho publicado desde 2011, data em lançõu o álbum "Te virar do avesso". É mineira de Belo Horizonte mas há seis anos que se deixou adoptar pelo Rio e por isso se auto-intitula mineiroca. Numa entrevista concedida ao jornal OGlobo desvenda uma curiosidade, quando visitou o Rio pela primeira vez, com 15 anos, tinha um desejo, conhecer a Rua Nascimento Silva 107, endereço referenciado na música de Vínicius de Moraes "Carta ao Tom", como a compreendo! É compositora e intérprete, chama-se Marcella Fogaça e tem um estilo bastante carioca. Um estilo praieiro na onda, descontraídamente cool e diria até, 100% carioca, iniciada pelo hawaiano Jack Johnson e onde também se pode incluir a cantora californiana Colbie Caillat. As suas músicas são leves e aprazíveis, estão longe de serem elaboradas e sofisticadas mas não deixam de ser apropriadas para momentos de pura descontração e ócio. Serão ótima companhia para uma saída de praia ou um belo vinho branco ao ar livre sem hora para para acabar numa interminável tarde de Verão. Eu já estou a planear vários momentos desses, é só o sol e o clima ajudarem e deixarem chegar a Primavera com sintomas de Verão, de uma vez por todas, a este lado do Atlântico.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Dark side of the moon

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Este disco dos Pink Floyd faz hoje 43 anos que foi lançado. Para mim é um disco muito especial pois foi o primeiro disco que ouvi dos Pink Floyd ainda muito novo, talvez até demasiado novo para ter noção da sua importância pois não tinha mais de 10 anos. Foi este disco que me despertou o interesse para descobrir os outros e o que me preparou para os outros que foram contemporâneos da minha geração, especialmente o "The wall" de 79 e o "The final cut" de 83. Confesso que já não é habitual ouvir Pink Floyd mas de vez em quando tenho vontade e este disco mantém-se no top das minhas preferências. Os Pink Floyd juntamente com os Dire Straits, os Supertramp, os Queen e noutra dimensão, o Tom Jobim, o Vinícius de Moraes e a Simone foram os grandes responsáveis pelo início da minha paixão pela música e pela formação dos meus gostos e preferências e, também por isso, fazem parte da minha vida. O tema "Us and them" é um excelente elemento para demonstrar esta minha estória com a música.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Rio eu te amo

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Foi um regresso sentido e emocionado a uma das cidades que, felizmente, já faz parte da minha vida. A espera, desta vez, foi longa, passaram-se mais de 3 anos desde a última vez que esta cidade me acolheu. Essa tinha sido muito especial pois foi a primeira visita ao Rio com a C. e senti um privilégio enorme de ter o exclusivo desígnio de ser o seu "mestre sala" e dar a conhecer esta cidade que tanto amo à minha querida mulher. A cidade recebeu-nos de braços totalmente abertos como é seu hábito e proporcionou-nos, mais uma vez, momentos que irão ficar nas nossas eternas memórias. Não foi uma estada fácil devido ao momento complicado que estamos a atravessar mas não havia melhor cidade para amenizar a inquietação latente que temos vivido nestes últimos meses e para nos dar ânimo para encarar os próximos tempos que se continuam a afigurar difíceis, infelizmente. Foi uma visita especial por tudo isso e também por um facto importante e significativo tendo em conta a paixão que nutro pela música popular brasileira. Pela primeira vez estava no Rio numa data marcante para a história da música brasileira, o aniversário do nascimento de Vinícius de Moraes, o grande poeta ou poetinha, como gostava de ser chamado e como os amigos, carinhosamente, lhe chamavam. Curiosamente, no seu caso, esta alcunha não lhe retirava em nada a sua grandiosidade, pelo contrário, só a aumentava agregando-lhe a dimensão humana e intimista que só os grandes homens possuem e que lhes é reconhecida pelos seus pares. Ficaram muitas coisa para fazer, como ficam sempre, faltou tempo para estar com todos os amigos, faltou força de vontade para correr mais vezes no calçadão (apesar de terem sido mais vezes do que é normal mas menos do que tinha sido planeado) mas isso é só mais um dos motivos que nos fazem ter vontade de voltar e planear a próxima visita. Como diz a letra da música "Samba pra Vinícius":
"Que a vida não gosta de esperar
A vida é pra valer,
A vida é pra levar,"
Foram 12 dias muito especiais que esperamos os dois repetir o mais breve possível e, por isso, queremos os dois agradecer mais esta deliciosa experiência. Obrigado Rio e obrigado aos amigos que sempre nos recebem de braços abertos. Daqui a pouco a gente volta! Rio nós te amamos!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O conceito de viniciano

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Crónica deliciosa da Anabela Mota Ribeiro que saiu originalmenteno jornal Público e que se pode encontrar no seu blog anabelamotaribeiro.pt . É uma homenagem inspiradora a um dos homens que mais admiro no mundo.
"Vinicius foi o mais viniciano dos homens. Tinha dito sobre Oxford: “Toda uma religião, mas nada de vivo: de lawrenciano, de rimbaudiano, de dostoievskiano, de shakespeariano ou quem você queira de fundamentalmente humano em si”. Vinicius imprimiu um adjectivo. O que só se faz sendo um substantivo e peras. O é que ser viniciano? É saber “comungar com um crioulo do morro e bater um samba com a faca na garrafa”. É ser “um poliedro cujo número de faces tende para o infinito – Jobim dixit.
Tom chamava-lhe o seu Poetinha. Vinícius chamava-lhe Tomzinho, Maestrinho Querido. Toda a gente era inha ou inho alguma coisa. Para Carmen Miranda, ele era “Vesúvio” – “coisa que me derrete”. Para os amigos, Vinô. Outros, depois de uma noite de estroinice, acenavam-lhe na rua, “Hello De Moraes”.
Foi Vinicius porque o pai admirava o herói romano de Quo Vadis, Marcus Vinitius. A epopeia, o desígnio, a heroicidade estavam-lhe predestinados. A sua biografia começa invariavelmente pela seguinte linha: “A música chegara a Vinicius antes mesmo que a palavra, pois ainda bebé, cantarolava uma canção de ninar com a primeira letra que compôs: “Ê batetê, ê cabidu”.
Nasceu na Gávea, bairro de classe média do Rio em Janeiro, no dia 19 de Outubro de 1913. A rua era assim: “A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge”. O pai tinha o nome improvável de Clodoaldo: “Se trocámos dez palavras durante a sua vida foi muito. “Bom dia”, “Como vai?”, “Até à volta”. Há pessoas com quem as palavras são desnecessárias. A vontade mesmo era a de abraçar com ele, sentir-lhe a barba na minha, e prantearmos juntos a inépcia para construir um mundo palpável”. O pai era latinista, arranhava o violãozinho. A mãe adorava cantar. Lydia Cruz de Moraes. “Caminito, os primeiros tangos argentinos, fox-trotes, as primeiras valsas, tudo ouvi através do canto de minha mãe”. Levavam uma vida tranquila. Empobreceram. Mudaram-se para a Ilha do Governador. Anos antes da poesia luminosa, em contacto com o sol de Ipanema, a aproximação ao mar, aos pescadores, à existência dos simples fez-se ali. “Uma grande liberdade que a Ilha proporcionava, né?”
O carácter viniciano talvez tenha começado nesses primeiros anos: na abolição de fronteiras “entre o erudito e o popular”, na junção da “poesia com o samba e o asfalto com o morro”. Talvez tenha começado, nessa experiência de liberdade, a ser “o branco mais preto do Brasil”. Ainda não era (não podia ser) o que viria a ser mais tarde: poeta, músico, diplomata, jornalista, crítico de cinema. De whisky na mão, "O uísque é o melhor amigo do homem, ele é o cachorro engarrafado”. E “tombeur de femmes” – como se escreve na biografia editada pela JobimMusic (de onde provêm as citações deste texto). Casou nove vezes. Sobre o amor: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure!". Teve cinco filhos. “Filhos… Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-los? Porém, que coisa linda, que coisa louca que filhos são”.
Podia ter sido tudo. Não sabia o que queria ser. Estudou Direito. Na faculdade conheceu Otávio de Faria e Augusto Frederico Schmidt. Mais importante: leu Baudelaire, Rilke, Proust. Ancorou-se nos simbolistas e românticos, escreveu poemas místicos. Um nervo que demoraria a extirpar. O ascetismo ia bem com a forma poética, mas violentava-lhe a forma quotidiana. Praticava a volúpia como quem nada na Lagoa Rodrigo de Freitas. Acariciou as pernas de uma amiga da mãe, “moça de pernas atraentes”, escondido debaixo da sala de jantar. Tinha 15 anos quando compôs uma canção-declaração a “Louras e Morenas”. Foi a sua estreia na composição, ofício a que voltaria, apenas, daí a 25 anos. Já era então diplomata e o poeta fundador da Bossa Nova. Era outro homem.
“Poderia este livro ser dividido em duas partes, correspondente a dois períodos distintos na poesia do autor. A primeira, transcendental, resultante de uma fase cristã. Na segunda parte (…) estão nitidamente marcados os movimentos de aproximação do mundo material, com a difícil mas consistente repulsa ao idealismo dos primeiros anos”. A advertência de Vinicius, que consta da “Nova Antologia Poética”, originalmente editada em 1954 e reeditada recentemente no Brasil, alude ainda à “luta mantida pelo autor contra si mesmo no sentido de uma libertação dos preconceitos e enjoamentos de sua classe e do seu meio, os quais tanto, e tão inutilmente, lhe angustiaram a formação”. A advertência data de 49. A deriva, ou o desejo, ou a necessidade dela, eram antigos. O viniciano estava prestes a ser.
Mostrou o Rio a Orson Welles, my friend Welles, foi íntimo de Manuel Bandeira, o Mané. Ouviu Sarah Vaughn, “a última grande cantora negra, uma maravilha que vou ver sempre que posso”, queixar-se dos atrasos constantes de Tommy Dorsey. Louis Armstrong era “o camarada”. Também havia Carmen Miranda, Pablo Neruda, havia everybody. Era o homem a quem o presidente Kubitschek, Juscelino para Vinicius, encomenda uma sinfonia para celebrar Brasília [“Sinfonia da Alvorada”, com Tom Jobim]. Mas quem ele gostaria de ter sido era “meu grande irmão negro Pixinguinha. Foi o ser mais lindo que encontrei dentro da escala humana. Eu tiro o chapéu para ele”.
Era uma “usina de ideias” imparável. Era um purista que defendia o cinema mudo. Foi crítico, fundou um cineclube, assistiu a projecções privadas em Los Angeles. Concebeu e desenhou a arquitectura poética de “Orfeu Negro”, uma revisitação do mito de Orfeu e Eurídice passado numa favela e transposto para cinema.
Estava sempre apertado de grana. Escreve numa carta, em 1955, “estou precisadíssimo de dinheiro”. Noutra, de 48, confidencia: “A Carmen ofereceu a Tati um pequeno job, como uma espécie de secretária dela. Isso é segredo absoluto (a questão monetária), porque o Itamaraty pode não gostar. Mas ela vai ganhando uma gaitinha bem boa. E são só dois meses, um em Miami e um na Europa”. Ganhou uma gaitinha menos boa com o consultório sentimental Abra o Seu Coração, que assinava sob o pseudónimo Helenice, no tablóide Última Hora. Escrevia para aqui e para acolá, escrevia canções, escrevia livros de poemas. Nunca chegava – “Estou gastando como um verdadeiro Onassis”.
Supostamente ganhava a vida como diplomata. Primeiro em Los Angeles, depois em Paris, depois Montevidéu, novamente Paris, na sede da Unesco. Foi exonerado do Ministério das Relações Exteriores com um telegrama famoso: “Despeça-se esse vagabundo”. O surpreendente é que, apesar do deboche, do percurso errático, da afronta aos códigos do poder, o despedimento tenha tardado tanto: surgiu em 1969. O viniciano havia tomado conta de Vinicius.
As mulheres: Beatriz, como a amada de Dante – Tati para todo o mundo, com quem casou por procuração; Lila, Lucinha, Nelita (que foi raptada, para casarem na Europa), Cristina, Gesse, Marta, Gilda. “Eu sou um ser muito fiel, embora não pareça e digam que não sou. Esse negócio de parceria é um pouco como o casamento. De repente, sem que a gente saiba prevenir ou explicar, o negócio começa a mixar”.
Os parceiros: Tom Jobim, Baden Powell, Carlinhos Lyra, Chico Buarque, Toquinho. Ficou como um dos fundadores da Bossa Nova, mas esteve pouco tempo na Bossa. Zé Miguel Wisnik, um intelectual paulista, resumiu: “Vinicius sempre decepcionou a todo o mundo!”. Susana Moraes, a filha mais velha, prossegue: “A primeira metade da obra é metafísica, e tem um rompimento disso para uma poesia do quotidiano, directamente influenciada por Manuel Bandeira e pelos poetas modernistas. Quando começou a fazer música, o pessoal da poesia, inclusive João Cabral de Melo Neto, ficaram horrorizados. Depois, largou a Bossa Nova e foi fazer afro-sambas com Baden [Powel]. Depois foi ser “pop star“ com Toquinho, fazer shows para estádios. Aí, passou para uma fase completamente hedonista. Que também foi muito criticada”.
Faz parte dos atributos do viniciano o hedonismo. Vinícius recebia na banheira, onde passava parte do dia – com uma temperatura e uma aquosidade uterina. Com metros de fio de telefone, uma garrafa de whisky e um copo. “De manhã escureço, de dia tardo, de tarde amanheço, de noite ardo”. Era um fauno. Depois do anjo que pretendeu ser nos primeiros anos. Apolínio e dionisíaco ao mesmo tempo. Internava-se numa clínica perto de casa para recuperar dos excessos, “para fazer plástica no fígado”.
Escrevia cartas; a maior parte, não chegava a mandar. “Tomzinho Querido, estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça que dá para toda a solidão do mundo” (1964). É 7 de Setembro, dia da independência do Brasil. Lamenta estar longe. Pede os seguintes menus no seu regresso a casa: “Um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco bem tostadinho, uma couvinha mineira, e doce de coco”. Era diabético.
Participou num movimento musical a que poeticamente se pode chamar “A Onda que se Ergueu no Mar”. “Chega de Saudade” foi a canção inaugural do movimento. Em 1958, o poeta com a reputação intacta, Oxford e a diplomacia no currículo, atrevia-se a escrever: “Pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca”. Neruda invejava-lhe a liberdade: “Não tive a coragem dele. Era o que mais gostava de ter feito: letras de música. Mas tive medo que me desprezassem”.
Escreveu abundantemente. Começou a compor quando Lila, a segunda mulher lhe perguntou “Porque é que você não compõe?” – 25 anos depois de uma canção para louras e morenas. Partilhou palcos com Tom e João Gilberto – timidamente. Transformou-se num pop star que enche estádios no mundo todo – com Toquinho e Miúcha, por exemplo. Deu azo a que o folclore ofuscasse a poesia. “A minha vocação fundamental, definitiva, digamos assim, é lírica”.
Morreu num dos seus “langorosos banhos”, no dia 9 de Julho de 1980. O seu epitáfio poderia ser: “Nasço amanhã, ando onde há espaço, meu tempo é quando”."
Anabela Mota Ribeira, publicado originalmente no Público

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A Bahia, o Rio, o samba, a bossa todos juntos em Oeiras

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Está quase, é já na sexta que vamos ter o prazer de ver atuar duas das principais figuras da música brasileira dos últimos 50 anos e são também dois dos principais músicos da minha lista de preferências. A verdade é que chegaram relativamente tarde à minha vida, o primeiro concerto que vi de Caetano foi na Expo 98 na sua turnée para promoção do seu disco "Livro" e que deu depois o disco ao vivo, "Prenda minha", grande show! Antes disso gostava mas não amava de paixão, as minhas referências da música brasileira eram outras, até aí, nomeadamente os pesos pesados da Bossa Nova, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a versátil Simone, Djavan e desde o início da sua carreira, a Marisa Monte. Se pensarmos que a sua participação conjunta no programa da RTP, Zip Zip foi há 46 anos, ou seja, quando eu era apenas um bebé recém nascido, a verdade é que a paixão por estes grandes músicos poderia ter surgido muito mais cedo. Esta turnée que temos o privilégio de receber chama-se "Caetano & Gil - Dois Amigos, Um Século de Música" e comemora os 50 anos de partilha e de cumplicidade destes dois amigos que já criaram tanta coisa maravilhosa quer individualmente, quer em conjunto que comprova que aquilo que geraram é muito mais grandioso do que a soma aritmética das suas obras. Vai ser um momento grande da minha e da nossa vida e, agora que o momento se aproxima, já é difícil conter a ansiedade de os ver entrar em palco.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A volta de uma linda voz

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Mariana de Moraes é neta do grande Vinícius de Moraes e foi abençoada pelo seu talento pois tem uma voz magnífica. Apesar disso, nunca foi uma artista da primeira linha da MPB e tem vindo a reparir a sua atividade entre a música e a representação. Em 2014 lançou um novo disco pela editora independente Biscoito Fino, fundada há cerca de 20 anos atrás e que tem vindo a ser uma figura importante na promoção da MPB desde a sua fundação. O disco chama-se, simplesmente, "Desejo" e este tema "Morro de amor", é uma composição da autoria de Caetano Veloso e Arnaldo Antunes.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

20 anos sem Tom Jobim

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A falta que ele faz apesar do enorme legado que deixou.



"Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída
Como é por exemplo que dá pra entender
A gente mal nasce e começa a morrer
Depois da chegada vem sempre a partida
Porque não há nada sem separação

Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, Sei lá
A vida tem sempre razão

A gente nem sabe que males se apronta
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
E o sol que desponta tem que anoitecer
De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é o descuido do não

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão"
Sei lá a vida tem sempre razão - Tom Jobim, Miúcha, Chico Buarque (Vinícius de Moraes)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Adoro quando isto acontece

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Novembro vai ser o mês das descobertas que tenhop feito ao longo destes últimos tempos e a continuação das novidades que já começaram em Outubro. Só este ano é que descobri mais um talento canadiano que canta jazz e bossa, Emilie-Claire Barlow tem uma voz lindíssima e é uma grande falha no meu trajecto de busca de boa música pis já tem uns 9 álbuns e o primeiro é de 1998. Canta em português com um sotaque bastante charmoso como se pode comprovar nesta sua versão de "Só danço samba" de Tom Jobim e Vinícius de Moraes e popularizada por João Gilberto e está muito bem. Tem ainda, no mesmo álbum chamado "like a lover" de 2005, uma versão incrível de uma das minhas músicas favoritas, "Retrato em branco e preto" de Tom Jobim e Chico Buarque. Não existe no Youtube mas, para quem tiver Spotify, aproveite.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Primeira amostra do novo disco do Gilberto Gil

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"Eu sou mais você e eu."



"Podem me chamar
E me pedir e me rogar
E podem mesmo falar mal
Ficar de mal que não faz mal
Podem preparar
Milhões de festas ao luar
Que eu não vou ir
Melhor nem pedir
Eu não vou ir, não quero ir
E também podem me obrigar
Até sorrir, até chorar
e podem mesmo imaginar
O que melhor lhes parecer
Podem espalhar
Que eu estou cansado de viver
E que é uma pena
Para quem me conheceu
Eu sou mais você
E... eu"
Você e eu - Gilberto Gil (autores Carlos Lyra e Vinícius de Morais)

sábado, 19 de outubro de 2013

100 anos do Poetinha

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E tudo nele e na sua obra continua tão actual e presente. A benção Poetinha, Saravá!

"O canto da mais difícil
E mais misteriosa das deusas
Do candomblé baiano
Aquela que sabe tudo
Sobre as ervas
Sobre a alquimia do amor"
Deaaá! Deeerê! Deaaá!
O homem que diz "dou"
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz "vou"
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz "sou"
Não é!
Porque quem é mesmo "é"
Não sou!
O homem que diz "tou"
Não tá
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor...
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!...
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...
Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer...
Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...
Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!"
Canto de Ossanha - Vinícius de Moraes e Baden Powel

"É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração"
Samba da benção - Vinicíus de Moraes e Baden Powell

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quarta feira de cinzas

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Saudades do Rio e a constatação que não as iremos amenizar tão cedo.


"Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando
Cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida
Feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza
Dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz
Seu canto de paz"
Marcha de quarta-feira de cinzas - Vinícius de Moraes e Toquinho

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

União da Ilha 2013

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O samba enredo da escola União da Ilha, que já teve grandes sucessos como  “Aquarela do Brasil”, o êxito da Simone, “O amanhã” (ah pois é! Em 1978!) e o grande “É hoje” ("a minha alegria atravessou o mar…") que é um dos hinos deste blog ("diga espelho meu se há na avenida alguém mais feliz que eu!") e um dos meus sambas favoritos, este ano faz homenagem ao centenário do nascimento do nosso Vinícius.
“Onde anda você..."poetinha"?
Saudade mandou te buscar
A ilha é paixão na avenida
Mais que nunca é preciso cantar!”


Curiosamente, o samba "É hoje" apesar de ser um dos sambas mais famosos, mais regravados e mais tocados nos blocos de Carnaval até hoje, valeu apenas o 7º lugar para a escola em 1982.


Já falta pouco e os níveis de ansiedade lá em casa já estão ao máximo. Domingo vamos ver quanto tempo se aguenta acordado na madrugada e como se conseguirá manter acordado no trabalho e evitar o desânimo por não estarmos lá e termos de trabalhar na segunda de Carnaval. Encararemos!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Estas coisas não podem acontecer por acaso

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Apesar de gostar da maioria das crónicas, não é assim tão frequente ouvir a crónica "sinais" do Fernando Alves na TSF simplesmente por geralmente não calha com o momento em que estou no carro a ir para o trabalho. Mas hoje ouvi e percebi que tinha de ouvir pois foi dedicado ao escritor Rubem Braga já que amanhã se comemora o centenário do seu nascimento. Este maravilhoso poeta brasileiro foi um grande amigo e parceiro do saudoso Vinícius de Moraes que, curiosamente, nasceu no mesmo 1913 e, portanto, também este ano se comemorará o seu centenário, mais propriamente a 19 de Outubro. A crónica fala, entre outras coisas, do gentil e sentido 'recado' que o Rubem Braga lhe escreveu, na primavera de 1980 (o Vinícius morreu a 9 de Julho desse ano, em pleno inverno do hemisfério sul) dando-lhe a triste notícia que a primavera tinha chegado sem Vinícius pela primeira vez desde 1913. É dos exemplos mais marcantes daquilo que deve ser a amizade. Lembra-me uma frase curta, sensata e eloquente o do Vinícius, "A gente não faz amigos, reconhece-os".

 "No Centenário de Rubem Braga
 Passa amanhã o centenário do nascimento de Rubem Braga, "o bravo Capitão Braga", como lhe chamou o grande amigo Vinicius de Moraes, cujo centenário se assinala também neste 2013. Vinicius morreu dez anos antes de Braga. E o grande cronista enviou-lhe, uns dias adiante, um "recado de primavera". Rubem Braga, que tinha feito de tudo nos jornais, reportagem de guerra, crónica, anotações intensas sobre a vida (que, ele o dizia, tanto escapava aos jornais), dava ao amigo Vinicius uma "notícia grave": a primavera chegara. Era a primeira primavera sem Vinicius, desde 1913, sublinhava o autor de "As coisas boas da vida": "Seu nome virou placa de rua e nessa rua que tem seu nome na placa vi ontem 3 garotas de Ipanema que usavam mini-saias. Parece que a moda voltou, nessa primavera. Acho que você aprovaria.(...)O tempo vai passando, poeta, chega a primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui - a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor." É um exercício demorado e surpreendente o de reunir o tanto que eles se escreveram, em ternura cúmplice. Mesmo quando Braga fez um arremedo irónico da Garota de Ipanema -ele que não olhou com bons olhos para a aventura musical de Vinicius,talvez porque esta o afastasse da oficina mais rigorosa do trabalho poético.. Rubem Braga e Vinicius foram ambos diplomatas. O mundo de ambos era vasto e há, no que se escreveram, algumas vezes, abraços de longe. Vinicius, na longa e tocante "Mensagem a Rubem Braga": "A meu amigo Rubem Braga digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever, mas digam-lhe: Digam-lhe que é Natal, que os sinos estão estão batendo e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros, falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia. Mas fora isso, vai-se vivendo". Procura a "Mensagem a Rubem Braga", a longa e comovente mensagem ao "bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil". E, neste fim de semana, procura um dos tantos livros de crónicas de Rubem Braga, jornalista multidisciplinar que ganhou prestígio na arte da crónica. Como ele dizia, escreveu sempre "para ser publicado no dia seguinte". Chamo, assim, para ele, na véspera do dia. Uma vez pediram-lhe que enumerasse dez coisas boas da vida. Dez coisas "que fazem a vida valer a pena". Entre essas dez coisas (coisas como reencontrar um sabor de comida da infância, "de tarde, na fazenda"), ele apontou: "Ler pela primeira vez um poema realmente bom, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler". Para amanhã: ler, ou reler, uma crónica de Rubem Braga. Se não tiveres à mão um dos seus livros, a Internet está cheia de crónicas dele. Em fundo, um samba de Vinicius."
Sinais de 11/01/2013 - Fernando Alves

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

50 anos

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Apenas porque a data é redonda de mais para não se assinalar e porque é uma música ícone que mais representa uma série de coisas que eu valorizo muito na minha vida é que me faz decidir colocar a música aqui no blog. Nunca amei esta música mas amo tudo o que ela me lembra e tudo para ela me transporta e só assim consigo suportar a milhentas vezes que ouvi as suas milhares de versões em modo música de hotel e de elevador. E assim, e como o Vinícius gostava de fazer, Saravá ao Vinícius e ao Tom pela inspiração, saravá à praia, ao mar e ao bairro de Ipanema que ainda hoje é maravilhosamente inspirador, Saravá ao doce balanço de todas as gatas cariocas, às de Ipanema em especial e à minha gata musa linda que se tornou zuga no momento que pisou o Rio pela primeira vez, Saravá à Bossa e a toda a música maravilhosa que nos chega do outro lado do Atlântico, Saravá ao restaurante Garota de Ipanema e a todos os restantes Garotas que existem no Rio e em especial Saravá ao Garota da Urca. Saravá també ao Veloso que era o boteco origianl e que agora é um bar maravilhoso no Leblon. Saravá aos croquetes de picanha irresistíveis do Veloso. Saravá também à musa inspiradora, Helô Pinheiro. Saravá a toda a cidade do Rio que é uma inspiração permanente e quase uma segunda casa para mim. Saravá a todos os músicos que conferiram à música um pouco mais de valor agregando-lhe um pouco de cada um deles, em especial João Gilberto, Astrid Gilberto, Stan Getz e Frank Sinatra. E um último Saravá a todos os meus amigos que partilham mais ou menos esta minha paixão pelas terras e pelas riquezas cariocas e que são um pilar fundamental da minha vida.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Até amanhã, Rio

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A minha alegria vai atravessar o mar e ancorar na passarela e vou junto com a minha gata que se tornará rapidamente a Garota do Leblon e de Ipanema, pelo menos aos meus olhos, já é!