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sábado, 19 de outubro de 2013

100 anos do Poetinha

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E tudo nele e na sua obra continua tão actual e presente. A benção Poetinha, Saravá!

"O canto da mais difícil
E mais misteriosa das deusas
Do candomblé baiano
Aquela que sabe tudo
Sobre as ervas
Sobre a alquimia do amor"
Deaaá! Deeerê! Deaaá!
O homem que diz "dou"
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz "vou"
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz "sou"
Não é!
Porque quem é mesmo "é"
Não sou!
O homem que diz "tou"
Não tá
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor...
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!...
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...
Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer...
Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!...
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...
Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!"
Canto de Ossanha - Vinícius de Moraes e Baden Powel

"É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração"
Samba da benção - Vinicíus de Moraes e Baden Powell

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Essa é só para ti, C.

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"Se eu pudesse por um dia
Esse amor, essa alegria
Eu te juro, te daria
Se pudesse esse amor todo dia
Chega perto, vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro canção
Se soubesses como eu gosto
Do teu cheiro, teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor
Chora flauta, chora pinho
Choro eu o teu cantor
Chora manso, bem baixinho
Nesse choro falando de amor

Quando passas, tão bonita
Nessa rua banhada de sol
Minha alma segue aflita
E eu me esqueço até do futebol
Vem depressa, vem sem medo
Foi pra ti meu coração
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro canção
Lá no fundo do meu coração"
Falando de amor - Tom Jobim e Leila Pinheiro

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sabiá com encanto português

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É arrepiante de bom e emocionante ver o entusiasmo genuíno de toda a plateia que, tem de se dizer, é uma plateia incrivelmente exigente. Belo desempenho do Zambujo e da Carminho já comentado aqui no blog mas agora com a prova.



"Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir
Cantar uma Sabiá...

Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia...

Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer..."
Sabiá - (Tom Jobim) António Zambujo e Carminho

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Prémios da Música Brasileira 2013

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Para além dos prémios e premiados, a cerimónia acolheu umauma homenagem ao Tom Jobim, com diversos artistas consagrados a interpretar alguns dos seus inúmeros êxitos. Entre essas interpretações, parece que causou furor uma interpretação dos "nossos" Zambujo e Carminho que arrebataram a sala com uma interpretação do tema "Sabiá". 
Até o Caetano fala sobre isso na sua crónica habitual no Jornal O Globo e que pode ser lida aqui
Curioso é ver como o Caetano já encara o nosso Zambujo como um consagrado. Muito bom.
Agora fiquei cheio de vontade de ver esse momento tão especial.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quarta feira de cinzas

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Saudades do Rio e a constatação que não as iremos amenizar tão cedo.


"Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando
Cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida
Feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza
Dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz
Seu canto de paz"
Marcha de quarta-feira de cinzas - Vinícius de Moraes e Toquinho

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Primeira amostra ainda fresquinha

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Nova música do novo de Caetano. Título sugestivo de mais uma grande música do meu cantor preferido, o cara é f*** mesmo.

"O poncho de juazeiro numa caverna do louro francês
Interativa essa fazenda de areais
Fitas cassete, uma ergométrica, os restos de rabada
Lá fora o mundo ainda se torce para encarar a equação
Pura invenção, dança da moda
A bossa nova é foda

O magno instrumento grego antigo diz que quando chegares aqui
Que o dom que muito homem não tem tem a influência do jazz
E tanto faz se o bar do judeu romântico de Minnesota
Porque ele o meu reconhece de volta a ítaca

A nossa vida nunca mais será igual
Samba de roda, neo carnaval, Rio São Francisco, Rio de Janeiro, canavial
A bossa nova é foda

O tom de tudo comanda as ondas do mar
Ondas sonoras que colorem o espacial
Homem cruel, destruidor, de brilho intenso, monomental
Deu ao poeta, velho profeta, a chave da casa de munição

O velho transformou o mito das raças tristes
Em minotauros, júnior ciganos, em José Aldo, Lyoto Machida, Victor Belford, Anderson Silva e a coisa toda

A bossa nova é foda
Ahhhhhh
A bossa nova é foda

Deu ao poeta, velho profeta, a chave da casa de munição
O velho transformou o mito das raças tristes
Em minotauros, júnior ciganos, em José Aldo, Lyoto Machida, Victor Belford, Anderson Silva e a coisa toda

A bossa nova é foda
Ahhhhhh
A bossa nova é foda"
A bossa nova é foda - Caetano Veloso   

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

50 anos

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Apenas porque a data é redonda de mais para não se assinalar e porque é uma música ícone que mais representa uma série de coisas que eu valorizo muito na minha vida é que me faz decidir colocar a música aqui no blog. Nunca amei esta música mas amo tudo o que ela me lembra e tudo para ela me transporta e só assim consigo suportar a milhentas vezes que ouvi as suas milhares de versões em modo música de hotel e de elevador. E assim, e como o Vinícius gostava de fazer, Saravá ao Vinícius e ao Tom pela inspiração, saravá à praia, ao mar e ao bairro de Ipanema que ainda hoje é maravilhosamente inspirador, Saravá ao doce balanço de todas as gatas cariocas, às de Ipanema em especial e à minha gata musa linda que se tornou zuga no momento que pisou o Rio pela primeira vez, Saravá à Bossa e a toda a música maravilhosa que nos chega do outro lado do Atlântico, Saravá ao restaurante Garota de Ipanema e a todos os restantes Garotas que existem no Rio e em especial Saravá ao Garota da Urca. Saravá també ao Veloso que era o boteco origianl e que agora é um bar maravilhoso no Leblon. Saravá aos croquetes de picanha irresistíveis do Veloso. Saravá também à musa inspiradora, Helô Pinheiro. Saravá a toda a cidade do Rio que é uma inspiração permanente e quase uma segunda casa para mim. Saravá a todos os músicos que conferiram à música um pouco mais de valor agregando-lhe um pouco de cada um deles, em especial João Gilberto, Astrid Gilberto, Stan Getz e Frank Sinatra. E um último Saravá a todos os meus amigos que partilham mais ou menos esta minha paixão pelas terras e pelas riquezas cariocas e que são um pilar fundamental da minha vida.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Parece-me que pode ser muito interessante

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Projecto conjunto de dois pilares da Bossa Nova, Joyce e o genial João Donato. Chama-se Aquarius e ainda só consegui ouvir isto.

Joyce e João Donato from Philippe Leon Anastassakis on Vimeo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A música segundo Tom Jobim

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Tivemos oportunidade de ir ver este documentário que estreou no Rio no momento que lá estávamos mas acabámos, por umna razão ou outra, por não ir. Isso faz com que agora tenha imensa vontade que o filme chegue aqui ou passe para dvd para podermo-nos deleitar a ver mais um retrato, com certeza, maravilhoso de uma época incrível e que influenciou de tal forma a cultura carioca ao ponto de um carioca genuíno da zona sul ser como é por causa desse turbilhão tranquilo que abalou a cultura e a sociedade brasileira com "o amor, o sorriso e a flor".
O Tom Jobim sempre foi para mim o embaixador e representante máximo dessa "onda que se ergueu no mar". Muito mais que todos os outros mas por nenhuma razão aparente a não ser a sua maior visibilidade e destaque no momento em que comecei a prestar atenção a este tipo de música e só lamento não ter tido oportunidade de o ver ao vivo.
Lembro-me de um programa de televisão gravado entre o Rio e Nova Iorque em que ele cantava, entre depoimentos, algumas das suas músicas mais conhecidas acompanhado por grandes vozes femininas da música brasileira. E isso só me fez admirá-lo ainda mais e fazer com que me emocionasse muito com a sua morte, chegando ao ponto de ir ver um espetáculo de homenagem, nessa noite, de um quarteto de jazz no Hotclub.
Existe já um documentário, realizado pela sua última mulher, que se chama "A casa do Tom" e que é muito bom pois é construído à volta de um dos seus mais queridos projectos, que foi a sua casa no Rio, em pleno suvaco do Cristo, como ele dizia. Agora estou ansioso por esse mas enquanto não chega aqui vai uma linda homenagem atrvés de mais uma crónica maravilhosa do extraordinário Arnaldo Jabor.
"A música segundo Tom Jobim
Fui ver o ótimo filme do Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim e me lembrei da frase do Nelson Rodrigues: "Nada mais antigo que o passado recente". Perfeito; dá para ver a espantosa mudança da vida social e cultural dos últimos 20 anos. As canções, as plateias, os olhos e ouvidos ligados nos shows, o desejo de transmitir a beleza de uma reflexão sobre nossas emoções, um ritmo de vida celebrando a inocência e a delicadeza, o tema do amor sempre presente, a qualidade das letras e sonoridade (Águas de Março é um grande poema sobre o devir), em suma, tudo que não é manipulação, barulheira fácil e boçal, nessa proliferação de irrelevâncias que pululam nas redes. Tudo bem, pode ser que estejamos no caos inicial, na infância de um novo e rico tempo cultural, como preveem os garimpeiros de ouro na bosta, mas, por enquanto, acho tudo um lixo.


O filme é a emocionante montagem de grandes momentos de nossa música como um discurso sem palavras. Saí do cinema como de um spa mental, no meio da poluição sonora e visual de São Paulo. Um filme terapêutico.

O documentário de Nelson e Dora me tocou muito. Sempre preferi ver fotos amareladas, filmes precários, antigos, que nos dão a sensação de nebulosas vidas mortas. As personagens do preto e branco, do trêmulo filme mudo, nos consolam com sua vetustez. Suas mortes são mais suportáveis porque pensamos: "Ah... naquele tempo se morria; hoje não". No filme moderno, o passado recente, em cores, nos mobiliza porque vira um presente implacável, embora impalpável. Vemos a alegria de festas sem som, sorrisos mudos, a juventude perdida dos rostos, as gargalhadas que não ecoam em lugar nenhum, as mulheres tão moças e lindas (e não nos dávamos conta disso) e nós mesmos, nossa saúde, nossos humores, tudo visível. Também vemos os indícios de erros que nos levarão ao fim - o corpo maltratado, a melancolia evitável, o riso amarelo, eu, você, nós todos no passado perdendo tempo, desvalorizando o que tínhamos. Mais emocionante que a tristeza de um passado é sua alegria perdida.

Lembrei-me que num dia feliz, sentado ao piano, Tom tocou para mim uma música nova - era Chansong, a obra-prima com a letra anglo-francesa: "I've never been in Paris for the summer, I never drank a scotch with this bouquet". Fui das primeiras pessoas a ouvir a música - tenho esse orgulho. Sempre que a ouço, vejo-me com ele, curvado, cantando com voz arfante, como se contasse um segredo.

Henri Bergson, o filósofo, declarou, quando viu os filmes de Lumière: "O cinema é importante para vermos como se moviam os antigos". Isso.

Sempre me emociono com esse milagre do cinema, em que as pessoas ressuscitam na tela e ficam ali, falando, como se nada tivesse acontecido. Isso me dói porque um dia serei também protagonista de um flashback de mim mesmo. Assusto-me se estou num bar e, de repente, minha saudosa comadre Nara Leão começa a cantar baixinho ali ao meu lado, como aliás canta no filme, nos lembrando de sua imensa importância.

Já sentira isso na obra-prima do Miguel Faria Jr., Vinicius, quando escrevi: "O tempo era outro, e me refiro a tempo como ritmo, timing. Movíamo-nos de outro modo, em paisagens claras, com perspectiva, distâncias nítidas, andávamos pela praia até o Leblon".

O mundo estava em foco e não era esse sumidouro de hoje. Esses filmes mostram um passado que poderia ser nosso presente. Ipanema era uma ilha de felicidade num país injusto, foi um momento raro em que o desejo e o projeto se encontraram, na praia, no bar, nas ruas com amendoeiras, nos amores mais livres, na música e literatura, antes da massificação.

O tempo se acelerou brutalmente nos últimos dez anos. Os filósofos vivem berrando: "Não temos mais tempo, porque as coisas fetichizaram o tempo!"

A cada dia, os blackberries, os iPads, os iPhones aumentam de potência, e o tempo vai se comprimindo. Até onde? Esta correria seria ótima se fôssemos chegar a alguma coisa, a uma estação Finlândia, a um terminal qualquer; mas, aonde chegaremos? No início do século 20, louvamos a velocidade crescente, revolucionária na arte moderna, a beleza do futuro, mas agora está chegando a hora de buscarmos a lentidão, a paz, o silêncio, como fazem as comunidades de "slow movement". Aliás, o filme nos lembra que ainda havia silêncio. Outro dia, me falou uma "pianista" de twitters e facebook: "Hoje não há mais tédio - temos telinhas o tempo todo diante dos olhos". Talvez, mas, sem vazio não há pensamento.

Agora, não temos condição de criticar e controlar mais nada, nem pela poesia, paródia, nem por nada. As coisas estão in charge, no comando da vida. Que diria Tom sobre isso? Bem, em conversas, nas suas falas sobre a natureza e em seus gestos já dava para ver a melancolia disfarçada de ceticismo sábio, víamos que ele já sabia que a barra ia pesar ali em Ipanema e em toda parte.

Talvez ele dissesse: "Você sabe, não é Jabor, você que é um árabe, um beduíno sem deserto, você sabe que a música existe no tempo. Se acelerar muito, a música vai junto, mas, depois de certo ponto, a arte perde o fôlego... Nós estamos querendo acabar com o Tempo".

Isso me remete a um filme antigo, cult, o Planeta Proibido, de Fred Wilcox, com George Sanders e Anne Francis, um planeta vazio onde todas as informações de um mundo morto estavam guardadas num imenso subterrâneo, uma gigantesca máquina, um super-Google. Toda a vida do planeta, tudo que se descobriu e construiu estava ali, arquivado para a eternidade. Só não havia mais vida em volta - a raça tecnológica dos Krells tinha sido extinta.

Mas Tom não ia prestar atenção neste papo cabeça. Ele gostava de ver o que era vivo ainda. Ele diria: "Deixa pra lá... Olha... lá no alto, os urubus caçadores estão dormindo na perna do vento..."
Arnaldo Jabor - Estado de S. Paulo, 24/01/2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Até amanhã, Rio

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A minha alegria vai atravessar o mar e ancorar na passarela e vou junto com a minha gata que se tornará rapidamente a Garota do Leblon e de Ipanema, pelo menos aos meus olhos, já é!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Nunca é demais

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"Coisa mais bonita é você,
Assim,
Justinho você
Eu juro,eu não sei porque você
Você é mais bonita que a flor,
Quem dera,
A primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza que é o amor
Perfumando a natureza,
Numa forma de mulher
Porque tão linda assim não existe a flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe
Porque tão linda assim não existe
A flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor,
Nem mesmo o amor existe"
Coisa mais linda - Caetano Veloso (poema de Vinícius de Moraes)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Gostar é ter certezas

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"...Não há você sem mim
E eu não existo sem você..."
Eu não existo sem você - Tom Jobim e Vinícius de Moraes

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Se eu pudesse...

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"Se eu pudesse por um dia
Esse amor, essa alegria
Eu te juro, te daria
Se pudesse esse amor todo dia
Chega perto, vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro canção
Se soubesses como eu gosto
Do teu cheiro, teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor
Chora flauta, chora pinho
Choro eu o teu cantor
Chora manso, bem baixinho
Nesse choro falando de amor

Quando passas, tão bonita
Nessa rua banhada de sol
Minha alma segue aflita
E eu me esqueço até do futebol
Vem depressa, vem sem medo
Foi pra ti meu coração
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro canção
Lá no fundo do meu coração"
Falando de amor - Tom Jobim

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Feliz aniversário amigo!!

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Esta é totalmente para ti!! Ainda por cima com os dois suspeitos do costume jumtos! Ainda vamos ter muitas descobertas da música que amamos, juntos. Grande abraço!

O Pato - João Gilberto, Caetano Veloso

terça-feira, 14 de junho de 2011

Você me perdoa, mestre João?

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O passado dia 10 de Junho celebrou mais um aniversário de uma das grands personalidades da música e um dos principais culpados, se não o principal, pela minha paixão ardente pela música brasileira e pelo Rio de Janeiro. Infelizmente nunca tive a oportunidade de o ver ao vivo mas sinto um enorme gosto em saber que, apesar dos seus 80 anos, continua ser possível que esse dia se concretize. Parabéns mestre João Gilberto, mesmo atrasados.

Esta é uma das minhas favoritas e umas das primeiras músicas que me lembro de ouvir o João Gilberto cantar. Grande Ary Barroso, também eu já me sinto com legitimidade para dizer, "Meu Brasil brasileiro!"

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Nelson Motta

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Adoro o Nelson Motta. O cara foi um verdadeiro privilegiado na sua adolescência, vivia no olho do furacão musical que explodiu no Brasil apartir de final dos anos 50. O grande Vinicius era visita lá de casa e isso é absolutamente invejável. Mas quando pôde pôr em prática a sua maioridade, logo fez jus ao privilégio que o destino lhe permitiu e, a partir daí, foi ele próprio parte activa e fundamental do furacão. Segundo ele, não gostava e música mas tudo mudou naquele momento marcante em 1960 quando esteve presente no famoso espetáculo que marcou o início do movimento da Bossa Nova na Faculdade de Arquitetura e que se denominou "A noite do amor do sorriso e da flor", inspirado no título do segundo LP do genial João Gilberto que o iria apresentar nessa noite. Assim qualquer um ficava não só a gostar mas apaixonado por música, né Nelson?
A partir daí foi sempre uma das personagens principais da história da MPB. Foi produtor da Polygram ainda muito jovem, onde produziu a Elis Regina, foi gerente / promotor do clube Dancin Days que inspirou a famosa novela, foi o responsável pela descoberta e pelo lançamento da Marisa Monte. Escreveu vários sucessos musicais para vários artistas brasileiros e escreveu város livros que aconselho. Para quem quiser conhecer em pormenor esta história aconselho o livro "Noites Tropicais" onde ele conta, na primeira pessoa, todas estas aventuras que têm um encanto especial.
Agora o excelente programa da Globo, o "Som Brasil" que vai homenageando artistas da MPB, decidiu homenagear este contemporâneo homem renascentista e, mais uma vez, fiquei surpreendido com excelentes versões de temas que já eram fantásticos no seus originais.
A primeira é o primeiro grande suceso da Marisa Monte "Bem que se quis", cantada pelo D'Black e a segunda é uma bonita versão da bela voz da Marjorie Estiano de um tema do Lulu Santos, "Certas Coisas".
Homenagem mais que merecida!

"Bem que se quis
depois de tudo ainda ser feliz
mas ja nao ha caminho pra voltar.
O que e que a vida fez da nossa vida?
O que e que a gente nao faz por amor?

Mas tanto faz,
ja me esqueci de te esquecer porque
o teu desejo e o meu melhor prazer
e o meu destino e querer sempre mais
a minha estrada corre pro teu mar

Agora vem pra perto vem
vem depressa vem sem fim dentro de mim
que eu quero sentir
o teu corpo pesando sobre o meu
vem meu amor vem pra mim,
me abraca devagar,
me beija e me faz esquecer."

"Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim...

Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz.
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...

A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim...

Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz,
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer..."

sábado, 1 de maio de 2010

"Gostosa, safada, cantada"

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"Há uns meses, uma amiga brasileiraperguntou-me porque não conseguia encontrar uma canção portuguesa com "gajo"- afinal, uma palavra tão usada neste país. Consegui descobrir uma música dos Ena Pá 2000 com "gajo", mas a pergunta da minha amiga mostrou como dois povos, que falam a mesma língua, enlaçam de forma diferente letra e música. Esta semana, na Casa Fernando Pessoa, vi o documentário brasileiro "Palavra (En)cantada" e ouvi o guionista, Marcio Debellian, explicar como se viciou em Fernando Pessoa de pois de ouvir Maria Bethânia cantar o poeta do bigode tímido. Na tela vi Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, Lenine, Caetano Veloso, Tom Zé e tantos outros que conseguiram, com ginga, excelência e usando a música, transportar a história oral para a literatura - uma literatura cantada, sem salamaleques, vénias, comendadores, punhos de renda ou cintos de castidade. Nas músicas brasileiras as pessoas "transam" e chegam a comer-se: "Vamos comer Caetano, degluti-lo, mastigá-lo, vamos lamber a língua", diz uma canção de Calcanhotto. No documentário, percebe-se como 500 anos de promiscuidade racial e miscigenação linguística resultaram em coisas como a Bossa Nova. Mas o filme é muito mais do que um relato histórico que viaja dos trovadores provençais até aos rappers cariocas. Está cheio de palavras gostosas, cantadas, safadas, malandras, incondicionalmente enamoradas - Lenine diz qe se lheparte o coração sempre que ouve os ditongos nasais - "ão" e "ãe" - exclusivos do português. E eu digo: obrigado, Brasil, por me dares tanta fome de língua"
Crónica Dia-A-Dia de Hugo Gonçalves no Jornal i de 01/05/10

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Intemporal

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Voltei a ouvi-lo completo e não consigo parar. Se voltassem a construir uma cápsula espacial para enviar para eventuais encontros com seres de outros planetas, este disco, definitivamente, tinha que ir. Representa o melhor que a humanidade tem, acentuado pela voz inigualável de João Gilberto, os poemas simples mas profundos, intimistas e emocionantes dos melhores poetas, Carlos Lyra, Vinícius, Ary Barroso, Newton Mendonça, Dorival Caymmi e o ritmo e a melodia contagiante da Bossa, chancelada pelos seus mais distintos representantes, onde se destaca, o maestro Tom Jobim (não esquecer Ronaldo Bôscoli, namorado de Nara Leão e futuro marido de Elis Regina).
Há poucas coisas no mundo que juntem tantos génios e que carregue consigo tanta história, tantos acontecimentos e tantas influências em mais de 50 anos (o disco é de 58!) que continuam a acontecer nos nossos dias. Nada é por acaso.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Encontrei!!!

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Samba da Benção gravado no encontro no restaurante "Au Bon Gourmet". Andava à procura há tanto tempo. Lembro-me de um programa na Rádio Comercial ao sábado de manhã (long time ago :( ) que começava quase sempre com esta música.

Deslumbrante

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A pureza e a sensibilidade desta senhora é emocionante, apaixonante e contagiante. E a sua paixão pela Bossa Nova e por João Gilberto é natural que me atraia ainda mais. Como ela diz, só depois de saber falar português é que percebeu que a sua vida estava representada na estrofe "Cantando eu mando a tristeza embora". So nice!

Esta, publico mas com um pedido respeitoso e submisso de permissão ao grande mestre Vinícius de Moraes pois não há versão como a dele! "Põe um pouco de amor na sua vida, como no seu samba!"